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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Qual o limite do infotenimento? (III) - Quando o barco naufraga em entrevistas coletivas

Em vários posts do RPitacos, foi mostrado como a prática do infotenimento (jornalismo + entretenimento) pode ser importante para o melhor entendimento de um assunto específico, mas que também pode prejudicar a imagem de uma instituição, de uma celebridade ou até mesmo de um jornalista, se o uso desta prática não for bem ensaiado, como mostra Kees Brants no artigo Quem tem medo do infotainment? (2005, p. 12). No texto, o autor parte para os programas políticos, mas as características atribuídas por ele em relação ao entretenimento podem ser relacionadas com a veiculação de programas esportivos.

"No lado do entretenimento, a expectativa reside em tópicos com conteúdos mais voltados para o interesse humano, onde os políticos são encarados como pessoas com características específicas. Aqui, a imagem e o espectáculo são mais importantes do que a mensagem, que deve ser simples, leve e com tom emocional. O estilo será, em geral, mais informal, pessoal e aberto; procura distrair em vez de enfatizar o distanciamento e a crítica. O formato é de entretenimento, que pode ser ou ligeiramente sensacional ou abertamente espectacular. As audiências participam activamente, mostrando aplauso ou reprovação."

O último tópico dito neste trecho será abordado mais profundamente: o limite entre o aplauso e a reprovação da prática do jornalismo de entretenimento, principalmente no âmbito esportivo. Na última semana, as discussões sobre até que ponto a prática do infotenimento não interfere na rotina e no humor dos jogadores/entrevistados aumentaram por conta de um episódio ocorrido numa entrevista coletiva do atacante argentino Hernán Barcos, do Palmeiras, no dia 16 de fevereiro.

Em meio às perguntas habituais para uma situação dessas, o jornalista Leo Bianchi, do Globo Esporte, citou as brincadeiras que colegas de clube fazem em relação a aparência do atacante, comparando-o com o jurado Pedro de Lara - falecido em 2007 - e com o assistente de palco Marquito, do programa do Ratinho (SBT).

E ainda mais: segundo o site LANCENET!, Bianchi ainda mostrou fotos do cantor Zé Ramalho e perguntou se Barcos se achava um pouco parecido com o artista. O resultado desta pergunta foi a indignação do jogador em responder que não queria brincadeiras naquele momento e, com a insistência do repórter, houve mais irritação, como mostra o vídeo a seguir.


Quando se insere um lado mais humorístico nas transmissões esportivas e, sobretudo, na maneira em que se entrevista uma pessoa, é necessário ter cautela e jogo de cintura em algumas situações. Afinal, cada pessoa possui um timing para assimilar brincadeiras e para aceitá-las ou não. A reportagem do Globo Esporte no dia seguinte tentou minimizar a situação, seja no programa de televisão ou no site. O repórter justificou que o argentino não sabia quem era o cantor Zé Ramalho, porém admitiu ter sido infeliz a ideia de mostrar as fotos do artista para Barcos.

Já o portal R7, pertencente à Rede Record, tratou o desentendimento de forma mais agressiva, chegando a explicitar os palavrões que o jogador disse e ainda colocou uma reportagem, mostrando a repercussão do episódio no Twitter, principalmente no perfil do apresentador Tiago Leifert, que chegou até a chamar seguidores que contrariaram a atitude de Bianchi para as vias de fato.

O que fica deste episódio é justamente o cuidado que se precisa ter ao abordar o tema do infotenimento e, acima de tudo, conhecer o comportamento do público a ser abordado nestas situações, para que episódios como o ocorrido entre o repórter e o jogador não sejam frequentes.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Quando o jornal é protagonista da notícia - Infotenimento e as despedidas de bancada

Com a prática do infotenimento, já várias vezes discutido e exemplificado neste blog, se torna frequente nos noticiários, pois incorpora um tom mais leve e menos "engessado" ao jornalismo e, em doses equilibradas, se constitui numa grande ferramenta para o melhor entendimento de uma matéria ou para dar uma maior emoção a um fato justificado. Sean Hagen mostra no artigo A emoção como agente da cognição jornalística (2008, p. 7), apresentado no VI Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, algumas das características que exprimem a emoção no jornalismo, principalmente o televisivo: 

"A imagem do apresentador de telejornal, frente ao complexo mundo que se instaura instantaneamente na tela da TV, atua como um vetor emocional de cognição. É pelos olhos, voz, expressão do rosto, corpo e pela roupa que muitos sentidos não lineares do saber se instauram. (...) O apresentador funciona como um reforço emocional às noticias, sinalizando quais são mais importantes e como reagir frente a elas. Assim, um olhar terno, um sorriso espontâneo, um rosto credível remetem o público a uma biblioteca pessoal de situações e emoções que podem reafirmar a crença no outro.".

E quando a emoção no jornalismo não se deve a uma notícia em específico, mas à despedida de um âncora da bancada depois de muitos anos e "boas noites" (ou "bons dias")? Será que é possível, ou necessário, dedicar um bloco de um programa telejornalístico para realizar alguma homenagem de despedida, em substituição a outras matérias?

Foi o que ocorreu na última segunda-feira, dia 05 de dezembro, durante a exibição do Jornal Nacional (Rede Globo), em que Fátima Bernardes, após 14 anos dividindo a bancada com o marido William Bonner, passou o posto para a sucessora Patrícia Poeta, antes apresentadora do Fantástico. No dia 1º, o noticiário já havia cedido aproximadamente quatro minutos para que os âncoras, e uma matéria previamente gravada, comentassem sobre as novidades da grade da emissora, já que Fátima assumirá um projeto próprio nos próximos anos, e que cobrirá a parte das manhãs da programação da Rede Globo.

Já quatro dias depois, um bloco inteiro do jornal foi dedicado a esta transição, com Patrícia Poeta sendo entrevistada por Bonner com um tom de informalidade e com a exibição de duas matérias, que mostraram acontecimentos marcantes das carreiras de Fátima e Patrícia.


Pode-se dizer, mesmo com a excessiva quantidade de tempo dedicado a essa despedida, que o uso do infotenimento não foi tão prejudicial ao objetivo do jornal, pois não houve emoção excessiva (apenas na entrevista coletiva, numa matéria exterior ao estúdio do jornal), ao contrário do que aconteceu na despedida de Rachel Sheherazade do Tambaú Notícias, antes de assumir a apresentação do SBT Brasil devido à repercussão de um comentário da apresentadora sobre o Carnaval, que também foi discutido no RPitacos.

Com um ar mais emotivo, com direito a um mini "Arquivo Confidencial" sobre a vida da profissional e a uma invasão ao estúdio da equipe do telejornal, o vídeo com a mesma duração do da despedida da Fátima teve maiores críticas, como a do blog Te Dou um Dado? Enfim, com o vídeo a seguir, pode-se ver uma grande diferença entre a despedida de Fátima e a de Rachel.


E então, com estes casos, é possível estabelecer um limite de até que ponto vale utilizar a emoção no jornalismo, ainda mais em assuntos da própria emissora que atingem os âncoras do jornal?


segunda-feira, 4 de abril de 2011

Qual é o limite do infotenimento? (II) - Dia da Mentira no Globo Esporte São Paulo

Neste blog, foram vários os posts retratando até que ponto o uso do infotenimento é saudável para dinamizar as coberturas jornalísticas (principalmente, as esportivas). Nesta última semana, houve um programa que pode trazer esta discussão novamente à tona.

Na última sexta-feira, muitas pessoas "comemoraram" o chamado dia da mentira - até mesmo o Google e o Youtube se aproveitaram da data para disseminar informações inverídicas. O interessante é que o dia 1º de abril foi escolhido para "celebrar" esta prática por conta de uma falha de comunicação. Segundo o site Brasil Escola, o rei da França, Carlos IX, após a implantação do calendário gregoriano, instituiu o dia primeiro de janeiro para ser o início do ano. Como as notícias demoravam muito para chegar às pessoas, fato que atrapalhou a adoção da mudança da data por todos.

Antes dessa mudança, o ano novo era comemorado do dia 25 de março até mais de uma semana depois, ou seja, no dia primeiro de abril. Algumas pessoas não gostaram da mudança no calendário e continuaram a comemorar na data antiga. Isso virou motivo de gozação, por parte das pessoas que concordaram com a nova data, e passaram a fazer brincadeiras com os radicais. Estas causaram dúvidas sobre a veracidade da data, confundindo as pessoas, por isso o surgimento do dia 1º de abril como dia da mentira. 

Geralmente, nesta data, os programas jornalísticos costumam exibir reportagens sobre esta faceta humana do ponto de vista comportamental, psicológico, muitas vezes sem se deixar influenciar diretamente pela data, publicando notícias falsas. Entretanto, a edição paulista do Globo Esporte decidiu pautar o jornal de 1º de abril incorporando o contexto da data.

O apresentador Tiago Leifert, diferentemente do habitual, vestiu-se de terno e gravata (assim como os repórteres Leonardo Bianchi e Renato Peters) e apresentou as notícias sentado em frente à uma bancada tradicional de telejornal. Com um semblante mais sério (dissolvido somente em alguns momentos), Leifert fez questão de ressaltar nos três blocos que "hoje é primeiro de abril, PRIMEIRO DE ABRIL!" (quase gritando para as câmeras). 

O Globo Esporte aproveitou a data para ironizar alguns clubes grandes paulistas e se utilizou, em algumas chamadas da escalada, de várias expressões de duplo sentido, como "Muricy está perto do fogão" (seria do Botafogo ou uma exibição de um dote culinário deste técnico de futebol, como mostra a figura que aparece na sequência da chamada?) ou "Neymar diz que fica no Santos, mas aparece no Real" (a seguir, é mostrada uma cédula com a fisionomia do atacante santista). 

Ainda no primeiro bloco, foram apresentadas notícias sobre o São Polo (um time de caiaque), do Corinthians alagoano (com a reportagem de Klebs Lós) e do Juventus, time paulistano com sérios riscos de ser rebaixado para a Série B1 do Campeonato Paulista e que trouxe novamente um técnico que deixou o time no começo do ano para trabalhar no Barueri, rival da mesma divisão estadual. Esta última notícia gerou uma "enquete interativa" no Globoesporte.com sobre se era correto este acolhimento por parte do Juventus.


No terceiro bloco, além da cobertura do grande clássico do Campeonato Paulista entre São Caetano e São Bernardo e de mais "gols da rodada" (só que agora, a de futebol society), a mentira que mais repercutiu (positiva e negativamente) nos portais de notícias e nas mídias sociais foi exibida, justamente, no encerramento do jornal. Um dos grandes argumentos para torcedores de outros times ridicularizarem o Corinthians é o fato de que o time ainda não conquistou a Copa Libertadores da América. 

Com este contexto, Leifert encerrou este Globo Esporte dizendo: "O Globo Esporte tá (sic) terminando, mas não sem antes de prestar uma merecida homenagem. Hoje é dia 1º de abril, Dia da Mentira, aniversário do 1º título do Corinthians na Libertadores da América". Em seguida, um vídeo mostrava uma montagem comemorativa do título inédito. Logo após o fim do jornal, o termo "GESP", que já estava entre os mais comentados na rede de microblogs Twitter, gerou vários comentários, bons e ruins, sobre a ironia final do Globo Esporte. Os portais de notícias na Internet, como o Portal Imprensa e Uol Esportes, repercutiram o fato, além de gerar comentários de colunistas esportivos e televisivos, como Milton Neves e Maurício Stycer.

A TV Corinthians respondeu às mentiras proferidas por Leifert e brincou, também no encerramento de um de seus programas, com o apresentador, insinuando a sua homossexualidade, ao parabenizá-lo pelo primeiro aniversário de casamento com Paulão, jogador de basquete da segunda divisão paulista. Muitas pessoas, inclusive corinthianos, não gostaram desta ironia apresentada pela televisão, achando-a muito pior do que a do Leifert. O vídeo está disponível a seguir.



O que se pode concluir destas situações é que o uso do infotenimento foi totalmente explícito nesta edição do Globo Esporte e, como já foi debatido neste mesmo blog, é necessário delimitar as fronteiras desta prática para que o jornalismo não se perca em meio às ironias e brincadeiras.
Já no segundo bloco, houve uma reportagem mostrando algumas mentiras históricas contadas na história do futebol, além da apresentação dos gols da Copa do Brasil, houve notícias sobre o Corinthians paranaense e o Palmeira piauiense e uma matéria sobre a faceta "piloto de avião" de Cacá Bueno.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Quantos lados tem a notícia? - Foco jornalístico na cobertura de Ronaldo na Twitcam

No ramo da comunicação e mesmo em situações pessoais, uma notícia pode ser passada de várias formas, porém sem ludibriar os receptores da informação com falsas verdades. Mas o que seria um conteúdo verídico na visão jornalísitca? É o que Iluska Coutinho explica no artigo O conceito de verdade e sua utilização no jornalismo (2004, p. 09):

"(...) o conteúdo oferecido pelo jornal em suas páginas não seria a “verdade absoluta”, em um paralelo com o conceito filosófico, mas a expressão da verdade, um relato verdadeiro de uma situação delimitada. Uma vez que como produto as matérias jornalísticas se referem a fatos isolados, muitas vezes descontextualizados, segundo críticas freqüentes, elas se afastariam da verdade filosófica, que não aceita visões atômicas."

Tendo esta citação como norte, uma simples matéria jornalística disseminou um desentendimento entre um jogador e alguns jornalistas. Na última terça-feira, dia 25 de janeiro, o atacante do Corinthians Ronaldo decidiu realizar uma Twitcam para seus seguidores no Twitter, juntamente com o lateral Roberto Carlos e os atacantes Dentinho e Jorge Henrique e as vésperas da estreia do time na Copa Libertadores da América contra o colombiano Tolima. O resultado da popularidade do atacante nas mídias sociais foi o acesso de 18 mil internautas ao bate-papo que, antes marcado para depois do Big Brother Brasil, foi adiantado pois, segundo o site de esportes do UOL, ele não saberia dizer se conseguiria ficar acordado até o horário estipulado.

Seguindo uma linha mais provocativa, Ronaldo leu (e, talvez, consentiu) um comentário dizendo que o Palmeiras, time arquirrival, não conseguiu trazer uma média de 18 mil pessoas aos seus jogos no ano passado causando risos dos colegas. Além disso, brincou com o nome do adversário da fase de Pré-Libertadores e, numa conversa por telefone com o atacante santista Neymar (no dia, concentrado com a Seleção Brasileira sub-20 que disputa o Sul Americano da categoria no Peru), fez uma espécie de 'lobby',  tentando convencê-lo a jogar no Corinthians, deixando Neymar sem graça.

O vídeo já serviria de polêmica por provocar a torcida do Palmeiras e a do Tolima, porém as diferentes interpretações jornalísticas, dadas no dia seguinte, para esta sessão de Twitcam causaram ainda mais repercussão. Como exemplos, serão discutidas as reportagens exibidas pelo Jogo Aberto (Band) e pelo Globo Esporte Paulista (apresentado por Tiago Leifert).

No primeiro programa, foi apresentada uma matéria mais crítica a respeito do bate-papo, com comentários do ex-jogador Neto, do narrador Ulisses Costa, do jornalista Leandro Quesada e do Dr. Osmar de Oliveira tendo, como foco das críticas, a provocação feita pelo Ronaldo à torcida palmeirense e ainda definiu que os jogadores falam muito e jogam pouco (vendo os últimos dois empates que a equipe conseguiu no Campeonato Paulista contra times de menor expressão).

Já no Globo Esporte, Tiago Leifert conduziu a polêmica de modo mais descontraído, não mostrando as provocações feitas para Palmeiras e Tolima, nem o 'lobby' a Neymar. Ele preferiu dar espaço a brincadeiras feitas por Ronaldo aos colegas de elenco e ainda brincou com a famigerada polêmica dos Meninos da Vila (vulgo Meninos do Twitter) do ano passado, pois um internauta chamou Roberto Carlos de "pé de alface" e ele só sorriu com a declaração.



Essa diferenciação no tratamento dado à conversa na Twitcam chamou a atenção do jogador, que, através do Twitter, elogiou Tiago Leifert e criticou de forma áspera o jornalismo esportivo da Rede Bandeirantes, chamando-a de "resto". (Um detalhe importante é que, na matéria do site do Globo Esporte aparece somente o elogio feito ao programa, tampando a crítica à outra emissora).

As declarações feitas ao jornalismo da Band tiveram uma repercussão quase de instantânea na emissora. O apresentador José Luiz Datena, o narrador Ulisses Costa e o ex-jogador Neto receberam a notícia de que estavam sendo citados negativamente pelo jogador durante o programa São Paulo Acontece. veiculado em São Paulo e pelas TV's a cabo.

Foi então que a discussão começou, com a acusação de que Ronaldo era "puxa saco" da Rede Globo, que não estava jogando bola e que não tinha responsabilidade com o que fala. Neto ainda insinuou sobre a maneira como o atacante chega para treinar, como se pode ver no vídeo a seguir, que traz também a matéria da Band sobre a Twitcam.



Ronaldo, postagens depois, se retratou, falando que tinha criticado só os profissionais, e não a emissora como um todo. Em tempo: o primeiro jogo da fase pré-Libertadores, ocorrido no Pacembu, ficou no empate em 0 a 0, decepcionante para a torcida do Corinthians (o time, na teoria, é mais forte do que o Tolima), e a torcida meio que "contrariou" as palavras de Ronaldo, pois na quarta-feira tinha menos espectadores no Pacembu do que quando o Palmeiras decidiu a seminifinal da Copa Sul-Americana contra o Goiás no Parque Antártica.

Este incidente mostra a junção de três erros: um estratégico (a provocação desnecessária de Ronaldo) e dois jornalísticos: o exagero no uso do infotenimento na reportagem da Globo (Leifert, por exemplo, não citou as piadas feitas ao Tolima e à torcida do Palmeiras, informações que muitos veículos de comunicação destacaram) e o desabafo descontrolado de Datena e Neto no programa da Band. Dois lados de um foco jornalístico que precisam se equilibrar para que polêmicas assim não aconteçam.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Qual é o limite do infotenimento? - A versão dourada e musicada do Globo Esporte

O mês de dezembro chega, os principais eventos esportivos estão se encerrando e o grande desafio dos noticiários especializados é preparar especiais de fim de ano e encontrar notícias para preencher os horários atribuídos pelas televisões. Uma das saídas encontradas pelos redatores é o uso do infotenimento, como já foi destacado neste blog. Mas uma pergunta é válida: qual o limite de se utilizar esta técnica num telejornal ancorado pela credibilidade? Uma resposta possível é tratada por Leonel Azevedo de Aguiar no artigo Entretenimento: valor-notícia fundamental, inserido na Revista Estudos em Jornalismo e Mídia (2008, p. 21):

"Os acontecimentos avaliados como importantes são, obrigatoriamente, selecionados para se tornarem notícias, enquanto que o interesse está vinculado à representação que os jornalistas fazem de seu leitor e também ao valor-notícia definido como capacidade de entretenimento. As notícias interessantes são as que procuram narrar um acontecimento com base na perspectiva do “interesse humano”, das curiosidades que atraem a atenção e do insólito. É esse critério de relevância – notícia interessante com potencialidade de entretenimento – que se coloca em contradição com o critério da importância própria dos acontecimentos."
Na tarde do dia 25 de dezembro, em pleno Natal, houve o fechamento da retrospectiva do ano de 2010 no Globo Esporte. Na ocasião, o apresentador Tiago Leifert comandava o jornal para todo o Brasil, por conta do plantão de Natal proposto pela emissora e mostrava, naquela semana, os principais fatos do ano, tendo, muitas vezes, a ótica do infotenimento como predominante. Naquele sábado, o último assunto a ser tratado no programa e na série de reportagens sobre 2010 foi uma seleção do "repertório musical" e dos "cantores-jogadores/dançarinos-jogadores" que marcaram o esporte neste ano. Então veio a ideia de homenagear, por conta da semelhança nos nomes, o programa Globo de Ouro.



O programa musical original foi exibido entre 1972 e 1990 em periodicidade variada (quartas-feiras - mensal e semanal; sextas-feiras - mensal; domingos - semanal e mensal) e com uma rotatividade de apresentadores e diretores durante o período em que ficou no ar.

Segundo o site Memória Globo, "O programa, inicialmente dirigido por Arnaldo Artilheiro e Mário Lúcio Vaz, estreou em dezembro de 1972 com o nome Globo de Ouro – A Super Parada Mensal e sua proposta era levar ao telespectador os maiores sucessos musicais do momento. A “parada” em questão era um ranking das dez músicas mais tocadas nas estações de rádio naquele mês."

No caso da homenagem feita pelo Globo Esporte, houve uma modernização da vinheta de abertura em relação à original e paródias a apresentadores da casa, como Faustão, Xuxa, Luciano Huck, de outras emissoras, como no bordão "Olha a hora!", dito por Luciano Facciolli, da Rede Bandeirantes, e a lembrança do bordão "Simplesmente um luxo", criado pelo saudoso apresentador e colunista social Ataíde Patrezi.

Foram oito atrações musicais, sendo que, ao final do bloco, foi divulgado o artista vencedor do ano que talvez receberá, como na versão original, um disco de ouro. O grande campeão foi o volante Richarlyson, atualmente no Atlético Mineiro, que atacou de cantor juntamente com outros artistas.

Como se pode ver, alicerçado no artigo de Aguiar, essas próprias apresentações musicais de esportistas talvez não teriam tanta importância em outras ocasiões, mas, pelo fato de terem um grande potencial para o infotenimento, são aproveitadas em determinados períodos do ano em que não se têm grandes notícias esportivas. Pode-se dizer com isso que o limite do infotenimento está na própria natureza do assunto, de sua relevância para determinado fim e do período em que se apresenta.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Divertir e informar combinam? - O uso do infotenimento no Globo Esporte Paulista

Com o início do século XXI, muitas mudanças ocorreram em várias áreas da comunicação, desde o grande desenvolvimento da Internet e suas ferramentas sociais, passando pela concepção de uma televisão mais interativa e por uma maior integração entre as mídias para fins mercadológicos, de divertimento e de informação, ou os dois últimos quesitos juntos.

Mas esta afirmação é possível de ser feita? Afinal de contas, o entretenimento pode ser aliado à informação sem se sobressair a esta? Existe uma linha jornalística recente (desde a década de 1980) que tenta conciliar os, até antes, antagônicos conceitos: o chamado jornalismo de infotenimento, que é explicado por Fabia Angélica Dejavite, em seu artigo A Notícia light e o jornalismo de infotenimento, apresentado durante o Intercom 2007 (p. 2):

 "(...) é o espaço destinado às matérias que visam informar e entreter, como, por exemplo, os assuntos sobre estilo de vida, as fofocas e as notícias de interesse humano – os quais atraem, sim, o público. Esse termo sintetiza, de maneira clara e objetiva, a intenção editorial do papel de entreter no jornalismo, pois segue seus princípios básicos que atende às necessidades de informação do receptor de hoje. Enfim, manifesta aquele conteúdo que informa com diversão."

O infotenimento, quando bem utilizado, causa grande aceitação do público, acarreta num aumento da audiência e, indiretamente, num conhecimento maior dos anunciantes daquele horário do telejornal, resultando em mais vendas ao mercado. Porém, quando se esquece a informação e passa-se a valorizar mais o lado lúdico, o telejornal perde a sua credibilidade em relação à crítica especializada e ao próprio telespectador.

Os dois lados desta moeda podem ser vistos na edição paulista do programa jornalístico Globo Esporte, apresentado por Tiago Leifert, que promoveu uma revolução no chamado "padrão Globo de jornalismo", abolindo o teleprompter e inserindo matérias mais longas e com temas poucos relacionados ao esporte, voltados mais ao humor.

Com essa modificação feita a partir do início de 2009, o jornal voltou a ser líder de audiência em seu horário e conquistou um público mais jovem e pessoas que geralmente não costumam assistir ao Globo Esporte, mas que o fazem graças a espontaniedade do apresentador, como neste comentário feito depois do jogo entre Santos e Corinthians, válido pelo Campeonato Paulista de 2010.



Porém, em algumas situações, o entretenimento foi demasiadamente superior à informação, como em maio de 2010, quando Leifert fez uma participação especial de menos de 2 segundos na novela Passione e se tornou um "insuportável", passando a apresentação das notícias para o Ivan Moré e se vangloriando de seu mais novo status de celebridade. Como pode-se ver, o vídeo dura oito minutos, sendo que menos de um é preenchido por notícias, refletindo, assim, o mau uso do infotenimento.



Este exagero de entretenimento no jornal pode ser facilmente evitado através de pesquisas de opinião destinadas aos telespectadores e amantes do "jeito Leifert" de conduzir o Globo Esporte, para que se realmente veja os erros e os acertos desta nova fase do programa. Pode-se concluir que o equilíbrio entre o jornalismo e o humor precisa ocorrer no infotenimento para que o primeiro possa continuar a ser valorizado e, mais do que isso, para que o telespectador se divirta, sem ser manipulado pela falta de informações úteis.