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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Um novo ponto "G"!

Por Manoel Marcondes Neto

Este é uma alerta a todos aqueles que querem uma imprensa “mais jornalística” e menos “jornalismo de assessoria”.

Foi aprovado, em 3 de maio último, o projeto de Resolução que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Jornalismo, bacharelado, faltando agora, apenas, a sanção ministerial.

A Comissão que tratou do mesmo tema para Relações Públicas, junto ao MEC, deveria, em minha opinião, posicionar-se CONTRÁRIA à seguinte redação do Artigo 4º., Item "G":

“Incluir, na formação profissional, as rotinas de trabalho do 'jornalista em assessoria' a instituições de todos os tipos.”

Ora, uma das mazelas - senão a pior - do jornalismo brasileiro (e das Relações Públicas brasileiras, por consequência) é o imoral exercício das duas profissões pelo mesmo indivíduo, ao mesmo tempo. O conflito de interesses dispensa mais comentários, pois é conhecido de todos.

Até o mais tosco dos cidadãos compreende que um jornalista a serviço de uma empresa, promove-a nas páginas, no ar, e no ciberespaço da imprensa, desservindo a isenção, a democracia, aos cidadãos, à própria imprensa como instituição e à cidadania corporativa, sempre colocada sob suspeição a partir do exercício de tráfico de influência.

Não existe - há muito tempo (como prova a modificação da denominação da Aberje) - "jornalismo empresarial".


JORNALISTA É QUEM TRABALHA EM VEÍCULO DE COMUNICAÇÃO!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Jornalismo e Relações Públicas: áreas irmãs siamesas

Por Manoel Marcondes Neto

"Ser 'repórter' é tomar chuva, molhar-se, e embebedar-se nas fontes".

Reproduzo 'post' de hoje, publicado em 'tópico' de grupo de Relações Públicas de que participo no Facebook, por achar que a discussão pode ser ampliada:

Nas sempre ótimas discussões havidas, nas redes sociais, sobre a profissão de errepê e sua (siamesa) interface com a dos jornalistas, uma coisa especial emergiu, para mim: a necessidade que o próprio Jornalismo tem de se rediscutir à luz das possibilidades de comunicação que surgiram com as novas tecnologias e cujo caso mais emblemático é o do blog "Fatos & Dados", da Petrobras.

O “case”

Quando os jornais, sistematicamente, não publicavam na íntegra as respostas dadas pela empresa a todas as perguntas enviadas pelos jornalistas, mas apenas parte delas, e só de algumas delas, "jogando fora" grande parte do esforço da(s) assessoria(s) de imprensa da Petrobras em responder as indagações feitas - por escrito -, a estatal resolveu publicá-las, todas, na íntegra, em blog que criou especificamente para isto, e em timing concomitante à edição na qual - possivelmente - seria publicada a matéria com os "quotes-resposta" pelos jornais. Ou seja, no primeiro minuto do dia seguinte, na internet - íntegra de perguntas e repostas, "por escrito".

Absurdo!

Houve uma "grita" geral na imprensa. Como pode a empresa "furar" o jornal? Isso é um desrespeito à atividade jornalística! O jornalão "O Estado de S. Paulo" escreveu mais ou menos assim, em editorial: "...esperamos que o bom senso impere e o blog seja tirado do ar...". Sabe quando isto iria acontecer? Nunca!

Se a imprensa não faz o seu trabalho direito; não apurando, não ouvindo o outro lado, não fazendo reportagem -Gay Talese ensina que reportagem é feita gastando sola de sapato e ouvido, e não "teclando" numa sala climatizada, em casa ou na redação -, não publicando as explicações (pedidas e dadas), o "entrevistado" tem todo o direito de mostrar, ao público interessado, como respondeu às indagações da imprensa.

Jornalistas e relações-públicas: duas faces de uma mesma moeda

Boas RRPP exigem boa imprensa. Imprensa forte, assessoria de imprensa forte. Ótimo!

Imprensa fraca e assessoria de imprensa forte? Péssimo!  Pois quem passa a “fazer” os jornais são as assessorias, e por mais que isto pareça uma "vitória" para errepês e assessores, é tremenda derrota para a cidadania, a sociedade e a democracia.


Nas discussões sobre passado, presente e futuro das RRPP no Brasil, não se pode deixar de discutir - e com os coleguinhas jornalistas junto - passado, presente e futuro do exercício do jornalismo. Ambas as atividades são faces de uma mesma realidade. E temos, juntos, que decidir se são também faces de uma mesma moeda, forte ou podre.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Quando o jornal é protagonista da notícia - Infotenimento e as despedidas de bancada

Com a prática do infotenimento, já várias vezes discutido e exemplificado neste blog, se torna frequente nos noticiários, pois incorpora um tom mais leve e menos "engessado" ao jornalismo e, em doses equilibradas, se constitui numa grande ferramenta para o melhor entendimento de uma matéria ou para dar uma maior emoção a um fato justificado. Sean Hagen mostra no artigo A emoção como agente da cognição jornalística (2008, p. 7), apresentado no VI Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, algumas das características que exprimem a emoção no jornalismo, principalmente o televisivo: 

"A imagem do apresentador de telejornal, frente ao complexo mundo que se instaura instantaneamente na tela da TV, atua como um vetor emocional de cognição. É pelos olhos, voz, expressão do rosto, corpo e pela roupa que muitos sentidos não lineares do saber se instauram. (...) O apresentador funciona como um reforço emocional às noticias, sinalizando quais são mais importantes e como reagir frente a elas. Assim, um olhar terno, um sorriso espontâneo, um rosto credível remetem o público a uma biblioteca pessoal de situações e emoções que podem reafirmar a crença no outro.".

E quando a emoção no jornalismo não se deve a uma notícia em específico, mas à despedida de um âncora da bancada depois de muitos anos e "boas noites" (ou "bons dias")? Será que é possível, ou necessário, dedicar um bloco de um programa telejornalístico para realizar alguma homenagem de despedida, em substituição a outras matérias?

Foi o que ocorreu na última segunda-feira, dia 05 de dezembro, durante a exibição do Jornal Nacional (Rede Globo), em que Fátima Bernardes, após 14 anos dividindo a bancada com o marido William Bonner, passou o posto para a sucessora Patrícia Poeta, antes apresentadora do Fantástico. No dia 1º, o noticiário já havia cedido aproximadamente quatro minutos para que os âncoras, e uma matéria previamente gravada, comentassem sobre as novidades da grade da emissora, já que Fátima assumirá um projeto próprio nos próximos anos, e que cobrirá a parte das manhãs da programação da Rede Globo.

Já quatro dias depois, um bloco inteiro do jornal foi dedicado a esta transição, com Patrícia Poeta sendo entrevistada por Bonner com um tom de informalidade e com a exibição de duas matérias, que mostraram acontecimentos marcantes das carreiras de Fátima e Patrícia.


Pode-se dizer, mesmo com a excessiva quantidade de tempo dedicado a essa despedida, que o uso do infotenimento não foi tão prejudicial ao objetivo do jornal, pois não houve emoção excessiva (apenas na entrevista coletiva, numa matéria exterior ao estúdio do jornal), ao contrário do que aconteceu na despedida de Rachel Sheherazade do Tambaú Notícias, antes de assumir a apresentação do SBT Brasil devido à repercussão de um comentário da apresentadora sobre o Carnaval, que também foi discutido no RPitacos.

Com um ar mais emotivo, com direito a um mini "Arquivo Confidencial" sobre a vida da profissional e a uma invasão ao estúdio da equipe do telejornal, o vídeo com a mesma duração do da despedida da Fátima teve maiores críticas, como a do blog Te Dou um Dado? Enfim, com o vídeo a seguir, pode-se ver uma grande diferença entre a despedida de Fátima e a de Rachel.


E então, com estes casos, é possível estabelecer um limite de até que ponto vale utilizar a emoção no jornalismo, ainda mais em assuntos da própria emissora que atingem os âncoras do jornal?


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Limites entre a imparcialidade e o ser torcedor - Cobertura da participação do Internacional no Mundial de Clubes FIFA

O futebol é considerado a grande paixão nacional por muitos brasileiros, e a maioria deles tem um time pelo qual se demonstra maior afeto e predileção. E quando um jornalista, que precisa ser ético e imparcial, possui uma paixão declarada por certo clube? E quando este time ganha ou perde um jogo importante na temporada? Como lidar com o ser torcedor, sem perder a lisura, se isso for possível? Para entender o fanatismo dos jornalistas esportivos em algumas coberturas e os seus distintos comportamentos, o blog mostra um caso recente.

No último dia 14 de dezembro, o time do Internacional/RS estreava no Mundial de Clubes organizado pela FIFA e sedidado nos Emirados Árabes Unidos. Os gaúchos tinham, como primeiro adversário, o desconhecido Mazembe, campeão africano vindo do Congo e que, para surpresa de muitos torcedores e especialistas, já tinha eliminado o mexicano Pachuca na fase anterior por 1 a 0.

O que quase nenhum amante sul-americano e europeu do futebol esperava aconteceu: o representante africano, pela primeira vez na história dos Mundiais, conseguiu chegar a uma decisão de título, derrotando a equipe brasileira por 2 a 0. A derrota repercutiu nos jornais do mundo todo e foi o assunto mais comentado no Twitter por vários dias.

Quando se fala em transmissões radiofônicas de partidas do Internacional, um dos nomes lembrados é o de Pedro Ernesto Denardin, narrador titular da Rádio Gaúcha desde 1995 e conhecido nacionalmente por suas locuções polêmicas e incomuns.

O caso mais falado ocorreu na Libertadores de 2006, no primeiro jogo da final entre Internacional e São Paulo, em que Denardin narra o 2º gol do time gaúcho, afirmando que o "Inter humilhou o campeão do mundo [São Paulo ganhou o título mundial em 2005 diante do Liverpool]" e pisou em cima da camisa tricolor. Esta narração também foi lembrada em 2010, quando o Inter venceu novamente o São Paulo nas semifinais e garantiu sua vaga ao Mundial, pois o outro finalista era o mexicano Pachuca, da Concacaf.



Porém, as narrações mais desesperadoras do locutor ocorreram no jogo do Mundial de Clubes de 2010, em que Denardin não acreditava na derrota do Internacional para o Mazembe. No Youtube, podem ser vistos as locuções de dois momentos dessa histórica vitória do time africano: os dois gols do time e os últimos minutos da partida. É necessário reparar que o locutor não ressalta as qualidades do Mazembe, mas, de certa forma, o humilha, dizendo, entre outras frases, que o time gaúcho não poderia perder para o time do Congo.
Passando para a televisão, no dia seguinte à eliminação do time gaúcho, a apresentadora do programa Jogo Aberto (BAND), Renata Fan, declaradamente colorada, decide apresentar o jornal neste dia e acaba quase que chorando ao vivo, pela própria situação de derrota e, indiretamente, por artifícios executados pela equipe - no caso, a música de fundo executada quando Renata tentava falar era a marcha fúnebre e alguns comentários infelizes do ex-jogador e comentarista Neto.



Renata, numa de suas falas no vídeo, afirma que não sabia se conseguiria falar como jornalista naquele dia, por alimentar uma expectativa grande sobre o time. A apresentadora ainda discorda do posicionamento do Internacional em abandonar o Campeonato Brasileiro para disputar o Mundial e ressalta o sacrifício que muitos torcedores fizeram para viajar à Abu Dabi, além de valorizar o bom futebol jogado pelo mazembe, ao contrário de Pedro Ernesto.

Seja pelo lado da histeria e do descontrole, seja pelo choro contido e pela tristeza, o fato é que misturar jornalismo esportivo com paixão declarada a um time específico pode, em algumas situações, ser prejudicial. Talvez muita gente se perguntou o porquê de a Renata não se poupar, e ter apresentado o Jogo Aberto naquele dia. Talvez muitos questionem até hoje as peculiares narrações de Pedro Ernesto. O que se pode dizer é que ter um time de coração não é de todo ruim; o problema é como incorporar esta paixão a um trabalho que preza, quase sempre, pela imparcialidade.