
Com esse mutismo da mídia sobre si mesma, salvo a exceção honrosa do “Observatório da Imprensa”, fica mais difícil chamar a atenção da audiência quanto a riscos corriqueiros de mau entendimento, propaganda enganosa, mensagens subliminares, comunicação feita pela metade e a inescapável parcialidade devida a acertos comerciais. Ora, se as Casas Bahia são o maior anunciante do veículo “X”, não se vai encontrar o escandaloso caso da morte por engano (o indivíduo baleado pelo segurança quando flanava pela loja paulista era cliente e não assaltante) na sua primeira página.
Vai longe o tempo em que alguns estudiosos apontavam riscos de manipulação, sacavam máximas contra a massificação ou se derretiam de admiração pela figura do Chacrinha – aquela personagem que repetia o bordão “quem não se comunica se trumbica”. (Aliás, vale a pena ver o documentário “Alô Alô Terezinha” de Nelson Hoineff sobre o Velho Guerreiro).
Porém, é preciso lembrar-se que a educação fundamental e média dos brasileiros anda pelas últimas posições mundiais, enquanto que a nossa mídia é, talvez, a mais sofisticada do planeta (além de ser a mais cara, em dólar, para se anunciar). Tal desequilíbrio “pró-mídia” faz da telinha da TV o veículo que mais educa e influencia o comportamento do indivíduo. A mídia homogeiniza, sim. É hábito e forma hábitos. Em um recente evento da indústria da mídia, o diretor da TV Globo “ensinava” em palestra: - é preciso conhecer as pessoas que estão assistindo. Depois conhecer todos os gostos delas. E aí conhecer seus hábitos de consumo...
É uma operação mercadológica perfeita – quem vai discutir a competência comercial da TV Globo? Mas em termos humanísticos, de formação cultural – que é, aliás, um dos mandamentos da Constituição Federal para as áreas da Comunicação e da Cultura (Dê uma olhadinha no link abaixo) – é nota zero.
Assim, seguindo uma trilha aberta por Ismar Soares, pesquisador e professor da USP, um batalhador das causas da educomunicação e da leitura crítica dos meios de comunicação no ensino fundamental e médio, postulo para os errepês essa função, seja no meio acadêmico, quando professor, seja no âmbito organizacional – privado, governamental ou terceiro setor. É preciso “sofisticar o olho e o ouvido” do cidadão e do executivo – inclusive para que compreenda a sutileza do trabalho de relações públicas, um arsenal de táticas avançadas de divulgação.
Assim como é rotina do errepê fazer o “issue management” – gerenciamento de questões sensíveis à empresa-cliente” – sugiro a inclusão de uma outra vertente em nosso trabalho interno junto à base da pirâmide e mesmo à gerência: a discussão das pautas de jornais e emissoras de rádio, análise de telejornais e da internet, visando uma discussão crítica do que normalmente está por trás daquilo que sai publicado.
O jornalista não tem tempo para fazer isso. E não tem perfil também. Seu trabalho é buscar a notícia – no máximo “agendar a pauta” (agenda setting). E trabalha pressionado pelos fatos, pelo chefe de redação, pela concorrência e pelas péssimas condições de trabalho.
O publicitário, no final das contas, é quem paga “toda essa festa que já vem malhada antes d’eu nascer” (Cazuza et al.). Não será este o perfil profissional a julgar a mídia. Este é seu sustentáculo. Precisa vender Melissinhas para a novela e para o feirante. Precisa faturar para a agência e para o veículo. Leitura crítica? Esquece!
Resta ao relações-públicas, por sua visão geral, comprometida com valores institucionais e o longo prazo, a missão de abrir olhos e ouvidos de seu cliente para o que acontece na mídia com potencial para afetá-lo, fazendo a tão necessária leitura crítica dos meios que sua educação fundamental, média – ou mesmo a superior – não ensinou.
Link:
Textos da Constituição Federal para as áreas da Comunicação e da Cultura