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terça-feira, 21 de maio de 2013

Boatos e o poder da mídia na comunicação governamental - O caso do Bolsa Família

Por Maíra Masiero

A mídia constitui um espaço essencial para o recebimento e o compartilhamento de diversas informações para a sociedade. Porém, nem tudo aquilo que é divulgado pela mídia (tanto a tradicional, a digital ou a humana - o famoso "boca a boca") pode ser considerado como verdadeiro: há casos em que os fatos não passam de boatos ou rumores, conceito explicado por Reule (2008, p. 2), citado por Gabriela da Silva Zago no artigo Do boato à notícia: Considerações sobre a circulação de informações entre Twitter e mídia online de referência (2010, p. 176):

[Rumores são] um tipo de informação não confirmada que se propaga na rede e que circula com a intenção de ser tomada como verdadeira. Sendo informação, é parte de um processo de comunicação que, por sua vez, é um fenômeno por si social”.
Se não for tomadas as devidas precauções, os rumores não se esvaziam no seu sentido inverídico, mas se passam como verdadeiros e podem prejudicar muitas empresas e pessoas, nos seus aspectos econômicos, profissionais e pessoais.

Um dos grandes exemplos de como os boatos podem tomar proporções inimagináveis aconteceu neste mês de maio: os rumores de que o programa Bolsa Família, do Governo Federal, iria ser suspenso e que os beneficiários teriam até o final de semana (dias 18 e 19 de maio) para sacar o dinheiro e ainda sobre a existência de um bônus por ocasião do Dia das Mães, causaram tumulto, filas enormes e depredações em bancos e lotéricas de vários Estados brasileiros.

Já no próprio sábado, o Governo Federal publicou uma nota desmentindo o boato e, no dia seguinte, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo solicitou à Polícia Federal a abertura de inquérito para investigar a origem da informação falsa. Também no domingo à noite, a fanpage da Caixa Econômica Federal no Facebook publicou uma outra nota esclarecendo o caso e confirmando o pagamento do benefício no dia estipulado para cada pessoa (a liberação do saque no fim-de-semana foi excepcional por conta do boato, e suspensa já na segunda-feira, dia 20).

Para gerenciar essa situação, por meio de uma "voz de autoridade" (que oferece uma maior credibilidade para solucionar uma situação desta magnitude) na segunda-feira posterior ao boato, a presidente Dilma Rousseff discursou num evento em Ipojuca (PE) rebatendo a informação falsa e dizendo que o autor do boato é "desumano" e "criminoso". O vídeo na íntegra que esclarece os rumores e a reação de Dilma está a seguir.



Ainda em relação à repercussão nas mídias sociais, na segunda-feira, a ministra Maria do Rosário, da Secretaria dos Direitos Humanos, publicou em seu perfil no Twitter a seguinte frase: "Boatos sobre fim do bolsa família deve ser da central de notícias da oposição. Revela posição ou desejo de quem nunca valorizou a política.". Resultado da declaração: segundo nota do portal G1, o líder do PSDB na Câmara dos Deputados, Carlos Sampaio, afirmou que vai apresentar requerimento, convocando a ministra para dar explicações acerca da frase.

No mesmo dia, a ministra tentou se explicar em duas postagens: "Gente,sobre tweet hj pela manhã, quero dizer que não tenho nenhuma indicação formal da origem de boatos. Singela opinião. Ñ quero politizar. / O importante é que todos os esclarecimentos estão sendo realizados. Escrevi bem cedinho e nem imaginei tal repercussão... Encerro o assunto." Como foi mostrado várias vezes neste mesmo blog, é necessário saber ouvir e se expressar nas mídias sociais, com consciência e responsabilidade para que uma outra crise não seja gerada a partir da resposta a um boato, que foi muito bem esclarecido e rechaçado pelo Governo.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Evolução da Comunicação Pública - Mudanças, avanços e desafios

*Este segundo post da seção RPrestigiando - X Semana de Relações Públicas da UNESP Bauru teve a colaboração das alunas Daiane Santana e Bianca Cesário, ambas do 2º ano do curso. A elas, nossos agradecimentos.

O primeiro dia da X Semana de Relações Públicas, ocorrido no dia 07 de junho, trouxe a professora Elizabeth Brandão como uma das expositoras sobre os Conceitos e o Histórico da Comunicação Pública. Ela dividiu suas explicações em três momentos: a consolidação do conceito na década de 1990, as mudanças ocorridas ao longo dos tempos - em relação, dentre outros quesitos, à exigência de uma maior participação da sociedade nos programas governamentais, como o Bolsa Família - e a importância de se entender a Comunicação Pública como uma "teia de cidadania" e facilitadora de políticas públicas. 

De fato, a comunicação pública teve, durante um certo período de tempo na História brasileira, uma imagem relacionada ao autoritarismo e ao controle da atuação da imprensa, porém modificada graças ao advento de um novo período democrático no Brasil, como relata Jorge Duarte em seu artigo Comunicação Pública (2003, p. 01):

"Durante os anos 1930 o governo federal definiu políticas de controle de informações cujo apogeu se deu entre 1939 e 1945, por meio do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) e uma rede nacional que buscava controlar e orientar a imprensa. Durante o regime militar, é organizado o Sistema de Comunicação Social no âmbito do governo, cujos focos eram propaganda e censura.
Com o fim da censura e a redemocratização, o panorama mudou. A Constituição de 1988, a transformação do Papel do Estado, o Código de Defesa do Consumidor, a terceirização e a desregulamentação, a atuação de grupos de interesse e movimentos sociais e o desenvolvimento tecnológico estabeleceram um sistema de participação e pressão que forçou a criação de mecanismos para dar atendimento às exigências de informação e tratamento justo por parte do cidadão em sua relação com o Estado e instituições, do consumidor com as empresas e entre todos os agentes sociais. (...)"

Assim, com esta nova visão da Comunicação Pública em construção, tornou-se fundamental aos órgãos públicos criar mecanismos de participação popular nas ações do governo e de divulgação destas práticas através dos vários meios de comunicação, tentando não soar como um aproveitamento político ou pessoal dos governantes envolvidos. E este é um grande desafio para a prática da Comunicação Pública, principalmente na esfera governamental, como mostra Maria Helena Weber no artigo Na comunicação pública, a captura do voto
(2007, p. 39):


"Todo processo de comunicação, inerente aos regimes democráticos, mais do que a necessidade de prestação de contas, de exercitar a relação com o público está dirigida á propaganda de um projeto político, de um sujeito, de um partido. A análise destas estratégias expõe a parte visível da política e as estruturas necessárias para manter essa visibilidade. Nesse aspecto, as redes midiáticas se tornam importantes e a política poderá ser submetida lógica midiática e à estética publicitária, adaptando-se a versão dos fatos à personalidade das mídias, dos jornalistas, dos blogueiros. São adaptações para diminuir os estranhamento das noticias corriqueiras e o fascínio da propaganda. A dramatização intima da política se impõe cada vez mais. o impacto da informação política sempre será dado pela mídia."

Cabe aos profissionais de Comunicação idealizarem estratégias para que esta confusão entre "politicagem" e prestação de contas não denigra a imagem de certo governo ou governante. O público receptor, muitas vezes, já não aceita uma simples divulgação dos fatos ou um semblante bonito nas telas da televisão, e sim deseja uma real prestação de contas sobre o destino do dinheiro público e uma comunicação pública de qualidade.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Informação pública e Publicidade - Convergências e divergências

É sabido de muitos que a comunicação pública é uma das vertentes mais importantes dsta área, pois lida com informações que não dizem respeito apenas a um grupo específico, mas a toda uma população, seja municipal, estadual ou federal. Pierre Zémur, no artigo As formas da comunicação pública, pertencente ao livro Comunicação Pública: Estado, Mercado, Sociedade e Interesse Público (2009, p. 225) mostra quatro dimensões de como levar uma informação pública à sociedade e de como pode acontecer a relação de comunicação neste contexto:

"(...) informar por dever, geralmente na ausência de desejo ou de motivação de compra; assegurar a pedagogia atrelada à uma mensagem complexa; incuir a comunicação no processo de identificação e de entrega do serviço; contribuir para conferir sentido à vida coletiva."

Pensando nestes quatro termos, pode-se perceber o quanto um bom plano de comunicação é importante para que a população seja bem informada e, com isso, se conscientize sobre um assunto determinado e tome atitudes para concretizar os conhecimentos adquiridos. Os elementos comunicacionais (no caso deste post, a publicidade é o grande exemplo) podem ajudar, e muito, para que a informação chegue coesa ao público desejado. Ou, infelizmente, podem atrapalhar este processo, apenas confundindo o receptor ou emitindo informações incompletas.

Uma campanha de comunicação pública bem sucedida, inclusive premiada com o Prêmio ABERJE São Paulo e Brasil 2010 na categoria Comunicação nas Crises Empresariais (como mostra a revista Comunicação Empresarial nº 78, p. 67, disponível na íntegra para os assinantes da Lector.com), foi feita pela Secretaria de Saúde do Governo do Estado de São Paulo que produziu, em março de 2009, um completo manual de comunicação de pandemias para evitar o pânico, mais frequente com a velocidade de aproximação do vírus H1N1, que matou milhares de pessoas naquele ano.

Um dos grandes benefícios desta ação foi a manutenção da credibilidade dos agentes públicos, com a publicação de artigos de técnicos da Secretaria pela grande imprensa, parcerias com a TV Globo na veiculação de entrevistas com especialistas e este plano de gerenciamento de crise, aliado à conscientização pública, foi destaque de uma entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura. Abaixo, um vídeo com o resumo das palavras do Secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata.


Porém, nem todas as campanhas governamentais conseguem conscientizar de maneira plena e eficiente a população acerca de um tema importante para a sociedade em geral. Neste mesmo artigo, Zémor alerta sobre as limitações dos meios de comunicação no que diz respeito a disseminação da informação pública (2009, p. 224):

"(...) os meios de comunicação pouco escapam à ilusão de eficacidade publicitária, de tratar o leitor, sobretudo o telespectador, como o consumidor de uma oferta homogênea. Eles podem contribuir para a difusão de dados públicos e encorajar a interatividade dos diálogos com as instituições públicas, mas raramente podem tratar de questões complexas".

Um exemplo da fraca emissão de informações sobre um assunto importante está nas campanhas de Mobilização Nacional pela Certidão de Nascimento e Documentação Básica. Mesmo com a presença, em 2009, do atacante Ronaldo, na época ainda em atividade pelo Corinthians, o tempo da campanha televisiva é utilizado mais para mostrar o jingle e algumas frases de efeito do que efetivamente informar sobre os benefícios de se ter uma certidão de nascimento, sempre redirecionando o fluxo de informações mais complexas entre Governo e cidadão para outros órgãos, como Cartórios e Prefeituras Municipais.




Pode-se dizer que se utilizar dos elementos da publicidade para divulgar uma informação pública, ou seja, de interesse geral da população, é válido e pertinente. Porém, o bom senso e uma expressiva noção de responsabilidade com o dinheiro público que é gasto nas campanhas, no caso dos órgãos municipais, estaduais e federais, devem prevalecer em qualquer situação.