Mostrando postagens com marcador Intertextualidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Intertextualidade. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Linguagem e intertextualidade - A 39ª rodada do Campeonato Brasileiro no STJD

Por Maíra Masiero

Talvez não seja novidade o fato de nenhum texto ser completamente "puro", inédito, mas que sempre tem alguma influência vinda de outros textos e tipos de discurso, e isso causa um fenômeno bem conhecido na parte linguística como intertextualidade. Mas o que isso significa? O autor Anselmo Peres Alós, no artigo Texto literário, texto cultural, intertextualidade (2006, p. 14), expõe um dos conceitos do que se chama de intertextualidade:

"(...) a intertextualidade fica sendo definida, de acordo com as reflexões de Kristeva, como o processo de interação e intercâmbio semiótico de um texto primeiro com outro texto, ou outros textos, particularmente com o texto cultural, o texto histórico e o texto social, (na medida em que os três se interseccionam sem, no entanto, serem redutíveis um ao(s) outro(s))."

Um exemplo de intertextualidade entre dois discursos é quando acontece um fato de grande repercussão, acarretando, quase que instantaneamente, numa infinidade de frases criativas e de conteúdos repletos de referências entre o caso em questão com outros tipos - antigos e novos - de discursos.

Para contextualizar essas questões, um dos assuntos mais falados na última semana foi a 39ª rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol. Não é um erro de cálculo de rodadas, mas esta foi realizada num campo bem diferente, sem grama e com mais juízes e auditores: o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Na última segunda-feira, foram julgados casos de escalação de jogadores irregulares, cometidos durante a 38ª rodada da competição (a última no campo de jogo). A Portuguesa e o Flamengo perderam 4 pontos cada, pagarão multa de R$ 1.000,00, e o time paulista irá disputar a Série B do campeonato, no lugar do Fluminense.



Se o resultado do julgamento foi ou não correto, não é o foco neste momento. O que se pode observar é a ativação imediata (e, algumas vezes, inconsciente) de recursos de intertextualidade já no decorrer do julgamento, comparando a sessão a um jogo de futebol, como nos exemplos abaixo:

"@henriquewicz - Bomba! Advogado do Fluminense acaba de ser eleito o craque do Brasileirão.
@matsbarbosa Brasileirão teve a 39ª rodada mas só quem jogou foi o Fluminense ganhou e permaneceu na SA.
@gui_pinheiro Delegação do Fluminense no momento faz o reconhecimento do TAPETE do tribunal.
@lais56 39° do Brasileirão: Fluminense 5 x 0 Portuguesa *Na 39ª rodada a vitória vale 4 pontos."

Outros fatores também foram relacionados, nas mídias sociais, com o discurso e o conceito do julgamento do STJD, como a eliminação do candidato Dom Paulinho Lima no programa The Voice Brasil, fator destacado pelo crítico de televisão Maurício Stycer em sua conta no Twitter. Após a postagem, o cantor respondeu simpaticamente a declaração, também se utilizando de intertextualidade, misturando os campos jurídico, esportivo e musical: "@mauriciostycer valeu pelo carinho meu velho!! Mas não é caso pra isso não, perdi "em campo" e o @TocaLulu é sério e tem que ser respeitado."

Para encerrar este post e provar que a intertextualidade não é fixa num fragmento de tempo ou espaço, foi produzido um vídeo com base nos "10 mandamentos do rei do camarote", reportagem publicada na revista Veja SP (que já foi discutido neste blog e que já é também uma intertextualidade com os 10 Mandamentos descritos nas Sagradas Escrituras), nomeando o Fluminense como "rei do tapetão", por conta do histórico de vários processos no STJD para reverter resultados obtidos dentro das quatro linhas do estádio.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Comunicação e intertextualidade - Posse de Dilma Rousseff sob a ótica de #galvaonaposse

A inserção de cases de comunicação não possui restrição de dia, nem de contexto. Basta somente que se tenha nas mãos um texto passível de análise para que algum estudo se inicie, seja visando o lado sociológico, cultural, midiático ou linguístico. Mas será que um texto é apenas um único texto somente?

É esta uma das perguntas que Koch, Bentes e Cavalcante (2007, p. 14)* tentam responder, baseando-se em renomados teóricos da Linguística. Para citar um exemplo, os autores descrevem o postulado dialógico de Bakhtin (1929): "um texto (enunciado) não existe nem pode ser avaliado e/ou compreendido isoladamente: ele está sempre em diálogo com outros textos." Ou seja, todo texto é um intertexto, possui outros textos dentro dele, causando, assim, a tão falada intertextualidade.

Neste mesmo livro, há a descrição de vários tipos de intertextualidade, que são importantes para os profissionais de comunicação, pois conseguem fazer com que seu produto ou ideia seja reconhecida rapidamente e lembrada por muito mais tempo. No caso a seguir, o fenômeno visto é a intertextualidade estilística (2007, p. 19), em que "o produtor do texto, com objetivos variados, repete, imita, parodia certos estilos ou variedades linguísticas (...)". No caso, o estilo copiado é de um famoso narrador esportivo da Rede Globo.

No primeiro dia do ano de 2011, figurava nos Trending Topics do microblog Twitter a hastag #galvaonaposse, que foi criada por Reinaldo Andrade e com o apoio do comentarista da ESPN Leonardo Bertozzi. A expressão retratava frases tipicamente usadas pelo locutor Galvão Bueno, só que adaptadas a tudo que ocorria na posse de Dilma Rousseff como Presidenta da República. Este novo fenômeno ocorrido no Twitter chegou rapidamente aos jornais eletrônicos, como no caderno on-line de Esportes da Folha de São Paulo e na página de Esportes do portal UOL.

E até mesmo repórteres da Rede Globo aderiram ao movimento de frases que o Galvão falaria neste momento especial para a democracia brasileira, criando ou dando retweet nas sentenças, como pode-se ver na figura abaixo, retirada do Twitter do jornalista esportivo da emissora Bruno Laurence.


Este fenômeno também ocorre, há muito tempo, com o ator Chuck Norris e, recentemente, com o jogador Brasão, na época jogador do Santa Cruz. A diferença entre estes fenômenos e o de Galvão é que, enquanto os primeiros reforçavam as "qualidades" dos personagens com frases de efeito, o que se viu em #galvaonaposse foi justamente o contrário: as características de narração que o Galvão possui, como as frases de efeito dele, reforçaram o que acontecia na posse, seja pelo lado humorístico ou crítico.

Outras frases interessantes retiradas de perfis aleatórios no Twitter durante a tarde do dia 1º de janeiro sobre a possível narração de uma posse presidencial, feita por Galvão Bueno:
- "assistir a #possedilma é teeste pra cardíaco amiiigo!! #galvaonaposse" (via @MrJuniorAzer);
- "Aponta o centro da mesa o ministro, Sr. Cesar Peluzzo. Final do discurso da presidente Dilma Roussef" #galvaonaposse (via @gabriel_imortal);
- "- Reginaldo, seu palpite. - Dilma. - Burti, você. - Dilma. - Mariana, o seu. - Dilma. - Eu vou de Vettel. VEM A LUZ VERMELHA!  #galvaonaposse" (via @SUILSC);
- "Sai que é suuua Dilma!!! #galvaonaposse" (via @wilsondealmeida).
 


É interessante perceber a identificação das frases com dois esportes populares no Brasil: o futebol (mais especificamente na frase repostada por Laurence e na 2ª  e 4ª frases retiradas da busca) e a Fórmula 1 (na 3ª frase, em que Dilma, implicitamente, é comparada a uma Ferrari). Além disso, perguntas para o comentarista de arbitragem Arnaldo César Coelho foram frequentes, como esta frase.

Com isso, pode-se ver a importância do entendimento da intertextualidade existente entre estas duas "vozes" diferentes (uma locução esportiva "falando", "interferindo", nem que seja de modo ficcional, com uma cerimônia de posse da primeira mulher presidenta do Brasil) para que a comunicação e o entendimento das expressões sejam eficazes. E isso, com certeza, ocorreu, basta ver a repercussão obtida da tag #galvaonaposse num dia em que o acesso ao Twitter é muito baixo em alguns horários. O ano de 2011 começou muito bem para a rede de microblogs e para os twitteiros criativos.

* KOCH, Ingendore G. Villaça; BENTES Anna Christina; CAVALCANTE,. Mônica Magalhães. Intertextualidade: diálogos possíveis. São Paulo: Cortez, 2007.