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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Uma história de profissionalismo e paixão - 100 anos de Relações Públicas no Brasil

Por Maíra Masiero

Era o ano de 1914. Tantos acontecimentos marcaram essa época, como o começo da Primeira Guerra Mundial, a primeira aparição no cinema do famoso personagem Carlitos, - interpretado por Charlie Chaplin - além da fundação oficial da Seleção Brasileira de Futebol e pelo início das atividades da Sociedade Esportiva Palmeiras, dentre tantos outros fatos importantes, nascimentos e falecimentos. Um desses fatos completa 100 anos exatamente no dia de hoje.

Fonte: CONRERP
Um engenheiro alagoano, chamado Eduardo Pinheiro Lobo (1876-1933), se estabeleceu na capital paulista para trabalhar na The Light and Power Co. Ltda., uma concessionária canadense de iluminação pública e do transporte coletivo, que abriu uma filial no Brasil no século XIX. A industrialização começava, aos poucos, a chegar aos grandes centros (assim como os órgãos de imprensa) e já se fazia necessário uma maior integração entre os públicos e as empresas, contribuindo com o esclarecimento junto à opinião pública.

Foi nesse intuito que, aos 30 de janeiro de 1914, a direção da Light criou o primeiro departamento de Relações Públicas no Brasil, e Eduardo Pinheiro Lobo tornou-se seu diretor, cargo exercido por dezenove anos, em que trabalhou praticamente até poucos meses antes de seu falecimento, a 15 de fevereiro de 1933. Pelos serviços prestados à profissão de Relações Públicas (mesmo envolvido com o contexto da Engenharia), Lobo se tornou o patrono da profissão no Brasil em 1973 e o dia de seu nascimento - 2 de dezembro -, o Dia Nacional das Relações Públicas, segundo a Lei nº 7.197, de 14 de junho de 1984.

O mais interessante é saber algumas peculiaridades sobre como esse Departamento foi formado e como foram as suas primeiras atividades em meio a uma Guerra Mundial e às mudanças que, inevitavelmente, aconteceriam com o passar do tempo. Em 1976, durante o IV Congresso Brasileiro de Relações Públicas, realizado em Alagoas, o profissional José Grandjean dos Santos Pinto, que conviveu profissionalmente com Lobo por quatro anos, apontou algumas características do trabalho do Departamento na época e fez uma homenagem ao companheiro de trabalho.

"No início de 1914, a direção da Light, sentindo a necessidade de um setor especializado para cuidar do seu relacionamento com os órgãos da imprensa e com os poderes concedentes, criou, por meio de um "Aviso Interno", baixado em 30 de janeiro daquele ano, o Departamento de Relações Públicas, com aquelas funções específicas, e outras que mais tarde viessem a lhe ser atribuídas.
[...]
Circunstância curiosa é a de que, no aviso em questão, embora redigido em inglês, como era usual, na época, por se tratar de uma companhia canadense, as palavras 'Relações Públicas' apareciam em português, entre aspas, admitindo-se que tenha sido essa a primeira vez que tal expressão foi escrita, num documento, em outro idioma que não o inglês.
Existem razões para supor que a nomeação do Dr. Eduardo Pinheiro Lobo para este posto, e mesmo a criação do Departamento de Relações Públicas, tenha sido uma surpresa.
Essa suposição encontra justificativa em uma notícia publicada no jornal A Gazeta, de São Paulo, em 2 de fevereiro de 1914, que dizia: 'Ouvimos que se darão proximamente várias modificações na direção da Light em São Paulo. Ao que nos disseram, o Dr. Eduardo Pinheiro Lobo, atual superintendente da Luz e Força, será nomeado vice-presidente da companhia, sendo substituído naquele cargo pelo Sr. Raink, chefe da Light em Sorocaba'.
Tal nota, observe-se, foi divulgada no dia seguinte àquele em que o Departamento de Relações Públicas da Light iniciara suas atividades."

Dentre outras declarações, Grandjean afirmou que a instalação deste Departamento foi necessária devido ao período difícil que a empresa atravessava, por conta de fatores climáticos e pelo esgotamento dos recursos hidráulicos. Mesmo com essa situação adversa, segundo Grandjean, os jornais da época apontavam a estiagem como culpada pela crise energética, e não a Light; isso provou que o trabalho do Departamento de Relações Públicas foi bem sucedido.

Por isso é que, nesta 400ª postagem do RPitacos, é necessário comemorar este centenário com alegria e com muito trabalho para que a profissão seja cada vez mais reconhecida, não acima das outras, mas de uma forma equivalente, seguindo os exemplos do patrono Lobo, como Grandjean mencionou para encerrar sua fala no Congresso de 1976:

"Sigamos, pois, na nossa atuação como profissionais de Relações Públicas, o caminho traçado por Eduardo Pinheiro Lobo, assim como seus magníficos exemplos, legados que dele recebemos e que devemos fortalecer e valorizar para que as gerações futuras possam também aproveitá-los.
Penedo pode, portanto, orgulhar-se de ter sido o berço desse brasileiro insigne, cuja vida é lembrada, cuja obra é enaltecida, numa feliz iniciativa da Associação Brasileira de Relações Públicas."

Feliz Centenário de RP no Brasil a todos!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

História, comunicação e cultura - Campo x cidade nas músicas sertanejas

Um dos rítimos musicais mais ouvidos atualmente, não só em pequenas regiões, mas em grandes centros, é a música sertaneja, mais particularmente o chamado sertanejo universitário. Muitas duplas, trios e cantores solo surgem a cada ano em vários pontos do Brasil mostrando as suas músicas, lotando casas de espetáculos, rodeios e festas diversas, gravando CD's e DVD's e conquistando admiradores por quase todos os lugares.

É sabido que a música sertaneja, já muito antes deste novo boom, mostrou e mostra várias facetas da vida no campo e na cidade, desde a simplicidade do campo e das declarações de amor - seja a uma amada, seja a parentes ou a outros objetos -, até a comicidade presente em situações específicas e o duplo sentido de algumas letras. 

Isto se justifica muito por conta das modificações ocorridas ao longo dos tempos na sociedade, como o êxodo rural e uma nova concepção de modernidade e de progresso, residida justamente nas áreas urbanas. 

Porém, um outro tema recorrente nas canções é a dualidade e a comparação feita entre campo e cidade que chega, em casos especiais, até a uma certa "rivalidade", como mostra o artigo Música SER-taneja?, escrito por Eurides de Souza Santos (1999, p. 05, grifos nossos):

"(...) Produzida por compositores interioranos ou não, ela reúne em suas características melódicas, rítmicas e harmônicas elementos peculiares às músicas das várias culturas interioranas do Brasil, mantendo inclusive a tradição do canto em duplas. Mas o que faz esta música se estabelecer e dominar grande parte do mercado da música popular atual é a sua alta produção configurada em estúdios de avançada tecnologia sonora, aliada a intensa ação da mídia no veicular deste estilo por todo território brasileiro, inclusive no sertão. Ela já não traz a comicidade como elemento chamativo, no entanto retoma de certa forma os sutis ideologismos românticos que celebram a suposta natureza intocada do campo e a qualidade de homem bom e natural do sertanejo em contraposição à paisagem de concreto das cidades como responsável pelo comportamento frio e desumano do homem urbano."

Utilizando-se destes referenciais, o post de hoje vai mostrar algumas músicas que refletem esta "rivalidade" entre as vidas no campo e na zona urbana. Primeiramente, é mostrada a canção Cavalo Enxuto, composta por Tião Carreiro, gravada primeiramente por ele e seu parceiro Pardinho, e regravada por vários artistas do segmento dentre eles as duplas Victor & Léo e Chitãozinho & Xororó, com a participação de Zé Henrique & Gabriel. Esta última regravação aparece neste vídeo do DVD Clássicos Sertanejos exibido a seguir.



A letra desta música apresenta três personagens: dois fazendeiros, um rico que só se locomove com carros importados e um outro que conserva sua tropa e seu cavalo ensinado, além da moça desejada pelos dois homens. Ela sugere que o cavalo e o carro importado apostem uma corrida e, quem chegasse primeiro ao portão de sua fazenda, iria conquistar o coração da donzela.

Os dois concordam e começam a chamada "aposta da paixão". O cavalo passa pelos atalhos e o carro, pela estrada de asfalto e por outra cheia de cancelas, o que atrasou a sua viagem. O animal vence a disputa e o fazendeiro mais pobre fica com a menina. Mostra-se, então, a vitória da simplicidade, da Natureza, do campo sobre o progresso desenfreado que invade o espaço rural.

No fim da música, o compositor alerta que "O progresso é coisa boa / Reconheço e não discuto / Mas aqui no meu sertão / Meu cavalo é absoluto / Foi Deus e a natureza / Que criou este produto", sem deixar de elogiar o progresso, mas valorizando ainda suas origens e seus instrumentos de trabalho - no caso desta música, o cavalo enxuto que lhe concedeu o amor tão esperado daquela moça.

Outra música sertaneja que mostra, ainda que de maneira menos explícita, esta comparação entre os homens do campo e da cidade é a canção O Granfino e o Caipira, composta por Victor Chaves, integrante da dupla Victor & Léo, e interpretada pelos próprios cantores. Abaixo, está um vídeo muito interessante que utiliza a música como trilha sonora de uma animação em que os personagens são tipicamente representados.



Nesta música, também há uma disputa entre um homem da cidade que acaba de chegar ao sertão e um caipira que está interessado na mesma moça do que ele. Neste caso, porém, a menina não chega a uma decisão final sobre qual dos dois seria o seu namorado e desiste da competição, assim como o caipira que até aconselha o granfino a fazer o mesmo. Mais uma vez, nesta letra, há a desvalorização do lucro e da riqueza como meios de conquistar o sexo oposto ("Ele acha que o dinheiro / Compra o amor / Mas se fosse fácil assim / A moça nem olhava / Para mim..."), mas não há uma sobrevalorização do caipira, até porque não há vencedor nesta disputa em especial.

O que se pode concluir, em relação particularmente a apresentação destas músicas, é que a dualidade campo-cidade permite uma competição em situações específicas, como a conquista de uma pessoa do sexo oposto, que, numa análise mais aprofundada, provoca uma reflexão sobre outros valores, muitas vezes esquecidos pela sociedade.