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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Linguagem e intertextualidade - A 39ª rodada do Campeonato Brasileiro no STJD

Por Maíra Masiero

Talvez não seja novidade o fato de nenhum texto ser completamente "puro", inédito, mas que sempre tem alguma influência vinda de outros textos e tipos de discurso, e isso causa um fenômeno bem conhecido na parte linguística como intertextualidade. Mas o que isso significa? O autor Anselmo Peres Alós, no artigo Texto literário, texto cultural, intertextualidade (2006, p. 14), expõe um dos conceitos do que se chama de intertextualidade:

"(...) a intertextualidade fica sendo definida, de acordo com as reflexões de Kristeva, como o processo de interação e intercâmbio semiótico de um texto primeiro com outro texto, ou outros textos, particularmente com o texto cultural, o texto histórico e o texto social, (na medida em que os três se interseccionam sem, no entanto, serem redutíveis um ao(s) outro(s))."

Um exemplo de intertextualidade entre dois discursos é quando acontece um fato de grande repercussão, acarretando, quase que instantaneamente, numa infinidade de frases criativas e de conteúdos repletos de referências entre o caso em questão com outros tipos - antigos e novos - de discursos.

Para contextualizar essas questões, um dos assuntos mais falados na última semana foi a 39ª rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol. Não é um erro de cálculo de rodadas, mas esta foi realizada num campo bem diferente, sem grama e com mais juízes e auditores: o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Na última segunda-feira, foram julgados casos de escalação de jogadores irregulares, cometidos durante a 38ª rodada da competição (a última no campo de jogo). A Portuguesa e o Flamengo perderam 4 pontos cada, pagarão multa de R$ 1.000,00, e o time paulista irá disputar a Série B do campeonato, no lugar do Fluminense.



Se o resultado do julgamento foi ou não correto, não é o foco neste momento. O que se pode observar é a ativação imediata (e, algumas vezes, inconsciente) de recursos de intertextualidade já no decorrer do julgamento, comparando a sessão a um jogo de futebol, como nos exemplos abaixo:

"@henriquewicz - Bomba! Advogado do Fluminense acaba de ser eleito o craque do Brasileirão.
@matsbarbosa Brasileirão teve a 39ª rodada mas só quem jogou foi o Fluminense ganhou e permaneceu na SA.
@gui_pinheiro Delegação do Fluminense no momento faz o reconhecimento do TAPETE do tribunal.
@lais56 39° do Brasileirão: Fluminense 5 x 0 Portuguesa *Na 39ª rodada a vitória vale 4 pontos."

Outros fatores também foram relacionados, nas mídias sociais, com o discurso e o conceito do julgamento do STJD, como a eliminação do candidato Dom Paulinho Lima no programa The Voice Brasil, fator destacado pelo crítico de televisão Maurício Stycer em sua conta no Twitter. Após a postagem, o cantor respondeu simpaticamente a declaração, também se utilizando de intertextualidade, misturando os campos jurídico, esportivo e musical: "@mauriciostycer valeu pelo carinho meu velho!! Mas não é caso pra isso não, perdi "em campo" e o @TocaLulu é sério e tem que ser respeitado."

Para encerrar este post e provar que a intertextualidade não é fixa num fragmento de tempo ou espaço, foi produzido um vídeo com base nos "10 mandamentos do rei do camarote", reportagem publicada na revista Veja SP (que já foi discutido neste blog e que já é também uma intertextualidade com os 10 Mandamentos descritos nas Sagradas Escrituras), nomeando o Fluminense como "rei do tapetão", por conta do histórico de vários processos no STJD para reverter resultados obtidos dentro das quatro linhas do estádio.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo! - Relações Públicas, futebol e protocolo

Por Maíra Masiero

Em 2013, as competições esportivas serão, mais uma vez, destaques em todo o mundo. E o futebol não é diferente: em preparação à Copa do Mundo no Brasil, que será disputada ano que vem, a Copa das Confederações no mês de junho já apresentará uma prévia do que o público pode esperar da maior competição futebolística de seleções. E não só em relação aos jogos, mas também quanto à organização de um evento mundialmente visto e que mobiliza milhões de pessoas ao redor do mundo.

Todo grandioso evento ou ato público, como esse, necessita de um cerimonial e de um protocolo rígidos e específicos, a fim de auxiliar na sua organização e consolidação. Embora tenham conceitos diferentes, cerimonial e protocolo, quando bem aplicados por profissionais capacitados (como os relações-públicas), se complementam para o bom andamento de um evento. Nesse post, será utilizada a definição dada no Guia de Eventos - Cerimonial e Protocolo, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Tocantins ([2009?], p. 11, grifos dos autores):


"O cerimonial é um conjunto de formalidades específicas de um ato/evento público, dispostas numa ordem seqüencial, que envolve a ordem de precedência (protocolo) a ser observada, a utilização de indumentária própria e de elementos simbólicos, bem como o cumprimento de um ritual
O Protocolo é parte importante do cerimonial e constitui-se do conjunto de normas para conduzir atos oficiais sob as regras da diplomacia, tais como a ordem geral de precedência. Em alguns eventos, principalmente aqueles nos quais estão presentes várias autoridades municipais, estaduais etc. com mesa solene, o protocolo soluciona as dúvidas de quem deverá ser chamado primeiro, quem deverá ficar ao lado de quem ou quando irá pronunciar-se. 
Desta forma, o cerimonial e o protocolo tornam-se imprescindíveis no contexto de qualquer empresa, organização e/ou instituição, levando-se em conta a relação destas com seus públicos. É um instrumento de comunicação que busca valorizar ações e gestos, boas relações, enfim, valorizar o elemento humano. Seu objetivo básico é tornar mais fácil o cumprimento das regras simples de convívio social entre os diversos públicos de interesse da organização."


O futebol também possui um protocolo estabelecido, principalmente na escolha dos árbitros, nas premiações e nos jogos oficiais. É comum, em torneios maiores e de renome internacional (Copa do Mundo, Copa das Confederações, Taça Libertadores da América, dentre outros), que se fale à respeito do cumprimento do protocolo - seja no início da partida ou ao final de uma competição.



A Federação Internacional de Futebol (Fédération Internationale de Football association - FIFA) possui, dentre suas Comissões Permanentes, uma voltada diretamente para as questões de protocolo. Segundo a legislação daquela entidade, no artigo 38, a Comissão de Protocolo possui características específicas:

"A Comissão de Protocolo consistirá de um presidente, um vice-presidente e do número de membros que for necessário. 
São obrigações da comissão: 
- Lidar com todos os assuntos envolvendo protocolo durante as competições da FIFA, convenções ou outros eventos nos quais a FIFA estiver envolvida; 
- Redigir propostas relevantes para o Comitê Executivo."

É interessante observar que, muitas vezes, um time demora demais para entrar em campo (no começo da partida ou após o intervalo do jogo), causando, assim, a quebra de um protocolo, que precisa ser resolvida o mais rápido possível pela Comissão. Para isso, o profissional de Relações Públicas deve agir (e/ou coordenar a ação de outros) com precisão e conhecimento das regras e procedimentos do jogo. Agora, basta esperar para conferir, em 2014, se o protocolo da FIFA para a próxima Copa do Mundo no Brasil será seguido à risca.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Qual o limite do infotenimento? (III) - Quando o barco naufraga em entrevistas coletivas

Em vários posts do RPitacos, foi mostrado como a prática do infotenimento (jornalismo + entretenimento) pode ser importante para o melhor entendimento de um assunto específico, mas que também pode prejudicar a imagem de uma instituição, de uma celebridade ou até mesmo de um jornalista, se o uso desta prática não for bem ensaiado, como mostra Kees Brants no artigo Quem tem medo do infotainment? (2005, p. 12). No texto, o autor parte para os programas políticos, mas as características atribuídas por ele em relação ao entretenimento podem ser relacionadas com a veiculação de programas esportivos.

"No lado do entretenimento, a expectativa reside em tópicos com conteúdos mais voltados para o interesse humano, onde os políticos são encarados como pessoas com características específicas. Aqui, a imagem e o espectáculo são mais importantes do que a mensagem, que deve ser simples, leve e com tom emocional. O estilo será, em geral, mais informal, pessoal e aberto; procura distrair em vez de enfatizar o distanciamento e a crítica. O formato é de entretenimento, que pode ser ou ligeiramente sensacional ou abertamente espectacular. As audiências participam activamente, mostrando aplauso ou reprovação."

O último tópico dito neste trecho será abordado mais profundamente: o limite entre o aplauso e a reprovação da prática do jornalismo de entretenimento, principalmente no âmbito esportivo. Na última semana, as discussões sobre até que ponto a prática do infotenimento não interfere na rotina e no humor dos jogadores/entrevistados aumentaram por conta de um episódio ocorrido numa entrevista coletiva do atacante argentino Hernán Barcos, do Palmeiras, no dia 16 de fevereiro.

Em meio às perguntas habituais para uma situação dessas, o jornalista Leo Bianchi, do Globo Esporte, citou as brincadeiras que colegas de clube fazem em relação a aparência do atacante, comparando-o com o jurado Pedro de Lara - falecido em 2007 - e com o assistente de palco Marquito, do programa do Ratinho (SBT).

E ainda mais: segundo o site LANCENET!, Bianchi ainda mostrou fotos do cantor Zé Ramalho e perguntou se Barcos se achava um pouco parecido com o artista. O resultado desta pergunta foi a indignação do jogador em responder que não queria brincadeiras naquele momento e, com a insistência do repórter, houve mais irritação, como mostra o vídeo a seguir.


Quando se insere um lado mais humorístico nas transmissões esportivas e, sobretudo, na maneira em que se entrevista uma pessoa, é necessário ter cautela e jogo de cintura em algumas situações. Afinal, cada pessoa possui um timing para assimilar brincadeiras e para aceitá-las ou não. A reportagem do Globo Esporte no dia seguinte tentou minimizar a situação, seja no programa de televisão ou no site. O repórter justificou que o argentino não sabia quem era o cantor Zé Ramalho, porém admitiu ter sido infeliz a ideia de mostrar as fotos do artista para Barcos.

Já o portal R7, pertencente à Rede Record, tratou o desentendimento de forma mais agressiva, chegando a explicitar os palavrões que o jogador disse e ainda colocou uma reportagem, mostrando a repercussão do episódio no Twitter, principalmente no perfil do apresentador Tiago Leifert, que chegou até a chamar seguidores que contrariaram a atitude de Bianchi para as vias de fato.

O que fica deste episódio é justamente o cuidado que se precisa ter ao abordar o tema do infotenimento e, acima de tudo, conhecer o comportamento do público a ser abordado nestas situações, para que episódios como o ocorrido entre o repórter e o jogador não sejam frequentes.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Antes da bola rolar - Importância do diagnóstico para o processo de planejamento

O título deste post quer chamar a atenção para uma comparação metafórica entre o início do processo de planejamento e um treino de futebol. Mas o que realmente uma situação tem a ver com a outra?

Geralmente, quando um time de futebol vai jogar num campo completamente desconhecido ou que passou por mudanças significativas desde a última partida em que se disputou ali, é feito um treino de reconhecimento do gramado, a fim de verificar as suas condições - se, por exemplo, a drenagem está funcionando de maneira adequada ou se não há falhas na composição do gramado, como os chamados "morros artilheiros" - e de adaptar os jogadores e o esquema tático da equipe ao tamanho e condições do campo.
Como exemplo desta prática, um vídeo do reconhecimento do gramado do estádio Mario Alberto Kempes, da cidade argentina de Córdoba, onde a seleção brasileira fez sua segunda partida pelo grupo B da Copa América no dia 09 de julho de 2011, contra o Paraguai.
Metaforicamente, esta prática também acontece quando uma nova estratégia de comunicação surge ou se começa um novo projeto ou etapa produtiva numa empresa ou instituição: é necessário entender as condições do "campo de jogo", ou seja, o contexto situacional em que se encontram as pessoas e as situações que serão afetadas por este projeto, para não ser surpreendido com possíveis problemas e dificuldades.

Também é importante perceber se os "atletas" (no caso, os colaboradores/equipes de trabalho) e se os recursos financeiros e estruturais são suficientes para que a ideia possa sair do papel. Para isso, feita esta relação de fatores, realizar um bom diagnóstico, princípio de todo planejamento eficiente, é fundamental para que os resultados desejados aconteçam de fato.

Um exemplo de como o diagnóstico ajuda no exercício do planejamento é vísivel quando aplicado numa pequena empresa, como mostram Ana Cláudia Fernandes Terence e Edmundo Escrivão Filho no artigo As particularidades das pequenas empresas no planejamento estratégico: a elaboração de um roteiro prático (2001, p. 598):

"O diagnóstico estratégico pode ser dividido em análise externa, análise interna e determinação dos fatores críticos de sucesso. A pequena empresa encontra algumas dificuldades no levantamento das informações necessárias para o desenvolvimento do diagnóstico estratégico. Desta forma, as análises ambientais devem ser feitas a partir de alguns itens básicos, fazendo-se importante ressaltar que, quanto mais informações a equipe conseguir levantar, melhor será a elaboração do planejamento estratégico."

Esta última frase do excerto apresentado anteriormente reflete esta comparação: assim como o treinador de futebol precisa deste treino de reconhecimento para verificar as condições de um estádio, o profissional responsável pelo planejamento necessita observar os pontos fortes e fracos, as oportunidades e as ameaças de cada situação. Para os Relações Públicas, uma das profissões responsáveis por este planejamento, as pesquisas de opinião qualitativas e quantitativas são essenciais para que o diagnóstico seja bem sucedido.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Saber falar, saber ouvir, saber escrever - As eleições no Palmeiras e o fotógrafo no Twitter

Como já foi visto em vários posts deste blog, uma indevida declaração em redes sociais gera uma pequena faísca que pode, posteriormente, tornar-se um fogo abrasador, desfigurando a imagem junto ao público não só de uma empresa, mas também de uma pessoa ou, ainda, simultaneamente, das duas facetas. Utiliza-se, para este post, a definição de crise de imagem atrelada a Roberto de Castro Neves (2002), citado por Renata Verbist no artigo O planejamento da comunicação auxiliando no gerenciamento de crises organizacionais (2009, p. 04, grifos nossos):

"Crise de imagem, para Neves (2002), é um fato que ocorre devido a um ato da organização [da pessoa física] (ou algo deixado de ser feito por ela) e que pode comprometer interesses dos públicos e a opinião pública. Pode ser uma situação inesperada, que foge do controle da administração e que sempre vai prejudicar a rotina da empresa [da pessoa envolvida]."

E gerir esta situação nem sempre consegue um resultado positivo. Um caso recente que exemplifica esta gestão inadequada de uma situação de crise ocorreu no dia 19 de janeiro, durante as eleições para presidente do Palmeiras, ocorridas na própria Academia de Futebol do clube. Um fotógrafo do jornal Agora São Paulo decidiu publicar em seu Twitter uma reclamação (ou, como foi entendido por muitos, uma provocação) sobre o andamento da votação. Esta reprodução do tweet foi vista no site GloboEsporte.com, pois o fotógrafo já retirou sua conta do site.


Os conselheiros do Palmeiras souberam rapidamente da declaração e alguns deles foram tirar satisfações com o autor da frase. Segundo matéria publicada pelo portal EBand, "O recado enfureceu os dirigentes, que foram até a sala de imprensa tirar satisfação com o fotógrafo. Os ânimos se exaltaram e, enquanto era retirado da área de imprensa, o fotógrafo foi agredido com um soco nas costas."  

A situação se normalizou depois da intervenção de seguranças e da assessoria de imprensa do clube. Este fotógrafo não mais trabalha no Agora São Paulo, e, segundo o Twitter oficial do clube, nem trabalhará mais na cobertura do Palmeiras. As imagens da agressão prontamente foram levadas ao ar pelas emissoras de televisão e chegaram à Internet, como nessa matéria levada ao ar no dia seguinte pelo Globo Esporte São Paulo.


Após esse dia, o Jornal Agora pediu desculpas à agremiação pelo incidente e afirmou que esse comportamento não reflete a linha de pensamento da empresa. Já o fotógrafo postou em seu Facebook um pedido de desculpas e justificou sua fala como uma alusão ao livro "A Revolução dos Bichos", escrito por George Orwell em 1945. Por sua vez, o ex-diretor de futebol do time, Wlademir Pescarmona, admitiu que houve exageros no tratamento dado ao fotógrafo, porém defendeu que o Palmeiras não pode ser desrespeitado, ainda mais na sua sede.

Argumentos a serem pautados: se o fotógrafo tivesse dado a devida citação a Orwell, se tivesse reclamado com outras palavras menos ásperas ou ainda se segurasse para não falar, o incidente seria facilmente evitado. Se os conselheiros envolvidos tivessem aulas básicas de como superar uma micro-crise (como a expressão utilizada pelo fotógrafo no Twitter), iriam pedir, com firmeza e sem violência, para que o autor se retirasse. E uma velha e batida frase se faz necessária nesta situação: um erro não justifica o outro.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Mais uma seleção em campo - Copa São Paulo de Futebol Júnior e as entrevistas de emprego

Um dos maiores medos de muitos profissionais é de participar das chamadas entrevistas de emprego, a única ou uma das etapas dos processos seletivos da maioria das empresas. Mas qual é a grande importância desta atividade para que possam ser recrutados os melhores candidatos ao emprego oferecido? E como se preparar bem para as perguntas?

Camila de Sousa Pereira e Almir Del Prette escreveram o ensaio Vendedor com paralisia cerebral bem-sucedido: análise de um filme na perspectiva das habilidades sociais, analisando o filme De Porta em Porta, que conta a história de Bill Porter, portador de paralisia cerebral e que tenta um emprego como vendedor porta a porta, enfrentando preconceitos e rejeição no início, porém conseguindo, ao longo do tempo, conquistar a confiança dos clientes. O trecho abaixo mostra como Bill Porter se comportou na primeira parte de sua entrevista, além de dicas de como se portar nesta parte importante da seleção.
 
"Na situação de entrevista de emprego, Sarriera, Câmara e Berlim (2006) ressaltam a importância das habilidades sociais de cumprimentar, apresentar-se, falar de si mesmo, expressar-se com objetividade e fluência, uma vez que, dentre os vários requisitos, o desempenho social no momento da entrevista pode ser fator determinante para a tomada de decisão do entrevistador. Pensando no desempenho de Bill Porter na entrevista de seleção, embora ele tenha se apresentado de maneira adequada, tanto no aspecto de vestimenta, como de bons modos, a priori, sua passividade diante da opinião do gerente, quase o fez perder a oportunidade de conquistar o emprego. Contudo, ele conseguiu analisar e alterar o seu desempenho para novamente enfrentar a situação."

E quando esta entrevista de emprego acontece coletivamente, num ambiente diferenciado e é visualizada por milhares de pessoas pela televisão? E quando se tem o histórico de que muitos candidatos aprovados nestas seletivas são reconhecidos pelo mundo inteiro e chegam aos mais altos cargos de sua profissão? Esta grande entrevista de emprego acontece em todo início da temporada brasileira de futebol: após os jovens jogadores passarem pelas "peneiras" de seus respectivos clubes, eles se enfrentam na chamada Copa São Paulo de Futebol Júnior.

Segundo o site Bola na Área, a competição existe desde 1969 e, desde então, ocorre anualmente (só não foi disputada em 1987), revelando grandes jogadores para o cenário nacional, como Dener, Falcão, Jardel, Djalminha, Luis Fabiano, Rogério Ceni, entre outros. Além disso, desde 1988, as cidades do interior de São Paulo também recebem as partidas, gerando receitas para os estádios e promovendo momentos de lazer no mês de janeiro. 

A competição tem sua final disputada no dia 25 de janeiro, aniversário da capital paulista, e pode ser comparada a uma entrevista de emprego, por ser uma grande feira para que os empresários agenciem os jogadores que se destacam e para que os times nacionais e internacionais escolham os melhores "candidatos" para atuarem nas suas equipes.

Para ilustrar muito bem este conceito, a seguir está o comercial produzido para as transmissões da Copa São Paulo de Futebol Júnior pelo Sportv, que mostra perguntas ilustrativas de uma entrevista de emprego habitual:
Qual é a sua principal habilidade? Sabe trabalhar em equipe? Como você lida com a pressão? Por que eu deveria te dar uma vaga no time? Com essas perguntas, o comercial mostra lances do primeiro torneio oficial da temporada e consegue dialogar com as seletivas de empresas, visto que ser jogador de futebol de grandes times é um ofício muito sonhado e disputado.


Com isso, é necessário perceber as transformações que o futebol está sofrendo ao longo dos anos. Os clubes, na sua maioria, têm atitudes que se assemelham às de empresas - inclusive existem times especializados em descobrir novos talentos do futebol e lançá-los diretamente aos grandes clubes brasileiros e estrangeiros. Por isso, a Copa São Paulo (ou Copinha, como é carinhosamente chamada) tem este caráter de "entrevista de emprego" e que pode ser decisiva para a vida dos jogadores dos 92 clubes que participam deste torneio.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A festa que não ocorreu para Ronaldinho Gaúcho - Gestão de crises no futebol porto-alegrense

Como já foi visto em vários posts deste blog, uma política eficiente de gestão de crises é imprescindível para qualquer empresa quando alguma situação inesperada ocorre. E, nesta política, é muito importante comunicar a veracidade dos fatos à imprensa de forma imediata, como discorre Maria Gabriela Gama em seu artigo Quando o Inferno desce à Terra: a gestão de crises e a sua problemática* (2000, p. 537):

"Perante um cenário de crise, a organização debate-se com uma série de questões às quais tem de dar respostas imediatas (...). Assim, os órgãos de comunicação social têm toda a legitimidade de exercer pressão para que lhes sejam dados todas as informações relevantes para esclarecimento dos diferentes públicos.
Há sempre a tentação para negar o que de facto aconteceu e, se possível, abafar os aspectos mais negativos. As especulações que se fazem em torno da organização são fruto do silêncio e não há nada que agrade mais aos órgãos de comunicação social do que descobrir que a organização está a camuflar o que na realidade aconteceu.
"


Por esta ótica das especulações, a gestão de crises também é necessária para os clubes de futebol, que também podem ser consideradas como organizações (desportivas, no caso). Esta importante prática não deve ser planejada só na época em que o time perde um campeonato ou uma partida importante: uma situação inesperada pode acontecer, como a própria expressão antecipa, a qualquer momento; no caso à seguir, num início de temporada futebolística brasileira.

O início do mês de janeiro é, geralmente, um período em que há poucas notícias a respeito de esportes dentro das quadras e campos (tanto que, como viu-se recentemente neste blog, muitas retrospectivas e matérias especiais são reservadas para estes dias). Os olhos dos telejornais especializados se voltam para a preparação dos times e as contratações para a próxima temporada, principalmente se forem jogadores renomados. Porém, nenhuma tentativa de contratação foi tão falada neste ano de 2011 como a do meio-campista Ronaldinho Gaúcho, que estava no time italiano do Milan.

Desde julho de 2010, havia o interesse do Palmeiras em repatriar o jogador, contudo a novela começou de fato em dezembro, quando o Grêmio, clube em que Ronaldinho atuou entre 1998 e 2001, entrou nas negociações e se apoiou, dentre outras vantagens, no quesito emocional para trazê-lo de volta ao Brasil. E então começou a épica disputa, ainda com Flamengo, Palmeiras e (talvez) Corinthians, para contar com o jogador na temporada de 2011.

Mas, dentre tantas notícias desencontradas e tantos personagens, o aspecto mais importante a se analisar neste post ocorreu na sexta feira, no Estádio Olímpico, no que seria a apresentação oficial de Ronaldinho como jogador do Grêmio, com direito a caixas de som reservadas no dia anterior, um helicóptero exclusivo para o clube, shows com artistas gaúchos (como o do ex-vocalista do Engenheiros do Hawaii) e reserva de reforços policiais.

Seria uma grande festa para reforçar, não só o elenco do time, mas a própria imagem do Grêmio, pois veículos de imprensa de todo o mundo estariam cobrindo a apresentação. Porém, a festa para o provável retorno de Ronaldinho ao Grêmio não ocorreu, frustando os torcedores que se aglomeraram nas dependências do Estádio Olímpico desde o período da manhã e revoltando Paulo Odone, presidente do clube. Palavras dele: "Mandei retirar tudo, mandei retirar e vou tirar junto o responsável. Não tem nada de novo, o Ronaldinho só será jogador do Grêmio quando assinar contrato". Esta situação indesejada virou motivo de chacota de torcedores rivais, como o vídeo abaixo que mostra no que resultou a festa armada pelo clube gaúcho:





Mesmo assim, os torcedores e dirigentes gremistas acreditavam num adiamento da festa para a semana seguinte. Porém, com o avanço das negociações de Ronaldinho com o Flamengo e com outras exigências propostas por Assis, irmão e empresário do jogador, o time porto-alegrense deu por encerrada a tentativa de contratação no fim da tarde do dia 08 de janeiro, interferindo negativamente na imagem do atleta junto aos torcedores gremistas. O Palmeiras, outro clube interessado no atleta, desistiu no dia seguinte.




Independentemente de qual clube irá contratar Ronaldinho Gaúcho (no caso, o Flamengo, que acertou com o atleta e seu empresário na noite de 10 de janeiro), o marketing do Grêmio saiu perdendo por gerar uma crise desnecessária no clube, contratando serviços e profissionais para uma festa que poderia não acontecer, como foi o caso. Se o objetivo desta movimentação de sexta feira era pressionar o atleta e o empresário, isto também não foi alcançado, pois os dois estavam no Rio de Janeiro. Quem mais perdeu (ou ganhou - só o tempo dirá) com estes acontecimentos desencontrados foi o torcedor gremista, que se sentiu enganado.


*In: Comunicação e Sociedade 2, Cadernos do Noroeste, Série Comunicação, Vol. 14 (1-2), 2000, 535-542.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Limites entre a imparcialidade e o ser torcedor - Cobertura da participação do Internacional no Mundial de Clubes FIFA

O futebol é considerado a grande paixão nacional por muitos brasileiros, e a maioria deles tem um time pelo qual se demonstra maior afeto e predileção. E quando um jornalista, que precisa ser ético e imparcial, possui uma paixão declarada por certo clube? E quando este time ganha ou perde um jogo importante na temporada? Como lidar com o ser torcedor, sem perder a lisura, se isso for possível? Para entender o fanatismo dos jornalistas esportivos em algumas coberturas e os seus distintos comportamentos, o blog mostra um caso recente.

No último dia 14 de dezembro, o time do Internacional/RS estreava no Mundial de Clubes organizado pela FIFA e sedidado nos Emirados Árabes Unidos. Os gaúchos tinham, como primeiro adversário, o desconhecido Mazembe, campeão africano vindo do Congo e que, para surpresa de muitos torcedores e especialistas, já tinha eliminado o mexicano Pachuca na fase anterior por 1 a 0.

O que quase nenhum amante sul-americano e europeu do futebol esperava aconteceu: o representante africano, pela primeira vez na história dos Mundiais, conseguiu chegar a uma decisão de título, derrotando a equipe brasileira por 2 a 0. A derrota repercutiu nos jornais do mundo todo e foi o assunto mais comentado no Twitter por vários dias.

Quando se fala em transmissões radiofônicas de partidas do Internacional, um dos nomes lembrados é o de Pedro Ernesto Denardin, narrador titular da Rádio Gaúcha desde 1995 e conhecido nacionalmente por suas locuções polêmicas e incomuns.

O caso mais falado ocorreu na Libertadores de 2006, no primeiro jogo da final entre Internacional e São Paulo, em que Denardin narra o 2º gol do time gaúcho, afirmando que o "Inter humilhou o campeão do mundo [São Paulo ganhou o título mundial em 2005 diante do Liverpool]" e pisou em cima da camisa tricolor. Esta narração também foi lembrada em 2010, quando o Inter venceu novamente o São Paulo nas semifinais e garantiu sua vaga ao Mundial, pois o outro finalista era o mexicano Pachuca, da Concacaf.



Porém, as narrações mais desesperadoras do locutor ocorreram no jogo do Mundial de Clubes de 2010, em que Denardin não acreditava na derrota do Internacional para o Mazembe. No Youtube, podem ser vistos as locuções de dois momentos dessa histórica vitória do time africano: os dois gols do time e os últimos minutos da partida. É necessário reparar que o locutor não ressalta as qualidades do Mazembe, mas, de certa forma, o humilha, dizendo, entre outras frases, que o time gaúcho não poderia perder para o time do Congo.
Passando para a televisão, no dia seguinte à eliminação do time gaúcho, a apresentadora do programa Jogo Aberto (BAND), Renata Fan, declaradamente colorada, decide apresentar o jornal neste dia e acaba quase que chorando ao vivo, pela própria situação de derrota e, indiretamente, por artifícios executados pela equipe - no caso, a música de fundo executada quando Renata tentava falar era a marcha fúnebre e alguns comentários infelizes do ex-jogador e comentarista Neto.



Renata, numa de suas falas no vídeo, afirma que não sabia se conseguiria falar como jornalista naquele dia, por alimentar uma expectativa grande sobre o time. A apresentadora ainda discorda do posicionamento do Internacional em abandonar o Campeonato Brasileiro para disputar o Mundial e ressalta o sacrifício que muitos torcedores fizeram para viajar à Abu Dabi, além de valorizar o bom futebol jogado pelo mazembe, ao contrário de Pedro Ernesto.

Seja pelo lado da histeria e do descontrole, seja pelo choro contido e pela tristeza, o fato é que misturar jornalismo esportivo com paixão declarada a um time específico pode, em algumas situações, ser prejudicial. Talvez muita gente se perguntou o porquê de a Renata não se poupar, e ter apresentado o Jogo Aberto naquele dia. Talvez muitos questionem até hoje as peculiares narrações de Pedro Ernesto. O que se pode dizer é que ter um time de coração não é de todo ruim; o problema é como incorporar esta paixão a um trabalho que preza, quase sempre, pela imparcialidade.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Media training no futebol e posicionamento perante o público - Scolari e Joel Santana

A maioria das empresas sabem que uma comunicação eficiente e justa com a imprensa é essencial para que haja a consolidação de sua imagem no mercado. Por sua vez, se algum deslize for cometido, a reputação pode ser manchada, e isto leva anos para se recuperar totalmente. Uma saída para esses momentos é, ao mesmo tempo, a mais fácil e a mais difícil: falar abertamente com a imprensa, como mostra Cecília Helena Toledo Vieira no artigo Aspectos Éticos da Comunicação Organizacional: as Relações entre a Cultura e o Poder nas Organizações (2003, p. 82):

"Falar com jornalistas tornou-se um lucrativo negócio para muitos empresários e executivos. Para alguns, conquistar essa relação e mantê-la tornou-se uma questão de sobrevivência. Seja qual for o perfil da empresa, ela aprendeu que atender ao jornalista, ainda que muitas vezes ele cometa injustiças e tenha atitudes antiéticas em sua profissão, é mais sensato do que fechar as portas à imprensa. (...)
Como a imprensa é seletiva, ela escolhe o que é notícia. Mesmo assim, há organizações, na figura de seus executivos, que mantêm políticas e posturas ostensivas aos jornalistas."

Como um exemplo desta situação nas organizações, no Campeonato Brasileiro de futebol do ano de 2010, dois treinadores se destacam por terem comportamentos distintos em relação ao tratamento dado à imprensa especializada: o técnico do Palmeiras Luis Felipe Scolari e o do Botafogo Joel Santana.

O técnico do Palmeiras cometeu um erro de relacionamento com a imprensa na terça-feira (23 de novembro), ao ser ríspido em comentar uma possível "entrega" do jogo contra o Fluminense para não beneficiar o Corinthians, principal rival futebolístico do time, na luta pelo título. O Palmeiras há algumas rodadas jogava com um time reserva, preservando os titulares para a semifinal da Copa Sul-Americana contra o Goiás, jogo realizado na quarta-feira seguinte.



Já o técnico do Botafogo é completamente o oposto: sempre com muita simpatia e paciência, Joel responde a todas as perguntas com clareza e sem perder o bom humor. Até mesmo nas questões mais complicadas ou embaraçosas, ele não perde a paciência e, quando ele não pode ou não quer responder, sempre busca uma maneira de escapar das respostas, sem ofender os jornalistas, como pode se ver no vídeo a seguir, de novembro de 2010.



No vídeo, questionado se ficaria no time do Botafogo ano que vem, Joel promoveu uma metáfora, ao comparar o segredo que se faz acerca do final de um filme à situação dele como treinador, causando risos e esclarecendo, ao mesmo tempo, a pergunta do jornalista. E ainda lamentou o fato de ainda não estar tranquilo no campeonato, pois não poderia tomar um sorvete de morango com flocos, expressão aproveitada no fim da matéria com uma ilustração e com um trecho da música "Baby", de Caetano Veloso, apropriada para o contexto.

A conclusão a que se pode chegar com esses dois exemplos é que, assim como nos times de futebol, a pessoa responsável pela linha de frente de uma empresa precisa saber dosar suas palavras em meio a momentos constrangedores ou de crise e que os profissionais que conseguem ter este jogo de cintura acabam recompensados com o prestígio dos torcedores e a tranquilidade da imprensa.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Media training e relacionamento com o torcedor (II) - Caso Pós-jogo Corinthians x Cruzeiro

Como já foi discutido num outro post deste mesmo blog, relacionar-se bem com as pessoas é imprescindível para as pessoas que queiram atingir um patamar melhor, tanto em aspectos pessoais quanto em profissionais. No cenário esportivo, se faz necessário aos treinadores, jogadores e dirigentes um ponto de personalidade muito importante, ainda mais depois de uma partida ou de uma atividade: equilíbrio da oralidade.

Geralmente, durante um momento de tensão ou de irritação, as pessoas são mais suscetíveis a falar sem pensar, a desabafar sobre um determinado assunto e a dizer coisas que, num instante de maior serenidade, não seriam expostas ao público. O serviço de media training pode contribuir para que frases comprometedoras não sejam ditas em voz alta para uma grande audiência, visto que a oralidade é uma grande ferramenta de comunicação, como mostram Marta Terezinha Motta Campos Martins e Waldyr Gutierrez Fortes no artigo Desenvolvimento da Comunicação Organizacional Agencia a Constância da Oralidade (2007, p. 11):

"(...) o nível estratégico da comunicação auxilia as empresas na busca desses diferenciais. Comunicação essa que é pensada em todas as dimensões: interna, externa, institucional e, certamente, também na vertente da oralidade, uma vez que a maior parte da comunicação das organizações com seus públicos, dá-se verbalmente.
A necessidade de planejar a oralidade fundamenta-se em garantir que todos os envolvidos recebam informações corretas e perceptíveis e em evitar que boatos e conflitos se instalem durante o processo de transmissão das mensagens."

Um exemplo de como não se dominar a oralidade aconteceu no último sábado, dia 13 de novembro, durante a 35ª rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol. O jogo entre Corinthians e Cruzeiro valia a liderança do torneio e acabou com a vitória do time paulista por 1 a 0, com um pênalti duvidoso marcado pelo árbitro Sandro Meira Ricci a favor do Corinthians e convertido por Ronaldo. No pós-jogo, o presidente do Cruzeiro Zezé Perrella acabou desabafando sobre o resultado e insinuando que o juiz tinha recebido dinheiro do adversário para favorecê-lo, xingando-o para quem quisesse ouvir.



Ainda que, ao fim das declarações, o dirigente tenha justificado sua revolta por ser um "cruzeirense" e estar de cabeça quente, Perrella é um homem público e precisa medir as expressões utilizadas, mesmo que num momento de estresse como nesta derrota contra um concorrente direto na luta pelo título nacional. As declarações do presidente poderão ter uma consequência maior, já que o próprio árbitro estuda medidas de processá-lo e o STJD pode punir Perrella, se ele não conseguir provar suas declarações acerca de Ricci.

O que se pode concluir deste episódio é que o controle emocional, aliado a um processo completo de media training, pode ajudar na prevenção de momentos constrangedores como este. No esporte, particularmente no futebol, os erros, infelizmente, ocorrem. Porém, quem errou mais do que o árbitro naquela noite foi Perrella, que colocou seu papel social de torcedor fanático acima do de presidente equilibrado que deveria ser.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Respeito à hierarquia nas organizações - Caso Neymar x Dorival Júnior (II)

* Esta é uma continuação extraordinária deste post, por conta dos acontecimentos ocorridos ontem. Qualquer informação anterior não repetida abaixo está incluída na postagem de 17 de setembro.

Como já foi dito em momentos anteriores, é necessário se respeitar a hierarquia de quaisquer empresas, incluindo nesta regra os times esportivos e, no caso específico, os futebolísticos. Também é muito importante a tomada firme de decisões, sem que haja qualquer indício de contradição por nenhum dos lados envolvidos. É o que, visivelmente, não ocorreu no time do Santos.

Após a polêmica do dia 15 de setembro envolvendo o, na época, técnico Dorival Júnior e o atacante Neymar, este último pagou uma multa e ficou afastado do jogo seguinte contra o Guarani. Neste ponto já há uma incoerência, visto que, até o fechamento da postagem anterior, só se falava em multas para o jogador, e não afastamento do time por tempo indeterminado. mostrando um grande desencontro na dvulgação das informações. O jogo aconteceu no fim de semana e acabou empatado sem gols.

Nesta quarta-feira, haverá o clássico entre Santos e Corinthians, e o técnico estava decidido a deixar Neymar fora do jogo, segundo ele, para o bem do atleta e, talvez, do clube. Já a diretoria queria colocá-lo em campo para não desvalorizá-lo, por conta de ser alvo de altos investimentos por parte do Santos. Mas, na matéria já linkada, Dorival afirma o respaldo da diretoria em relação à punição, deixando a decisão para o treinador. Quem estaria falando a verdade nesta história?

O fato é que, na noite da terça-feira, numa reunião entre diretoria e treinador, foi sacramentada a demissão de Dorival Junior e a reintegração de Neymar à concentração do time para o jogo desta quarta-feira, causando polêmica, aprovação e desaprovação em vários colunistas, como Juca Kfouri, Nilson Cesar, Fernando Sampaio, Erich Beting, Antonio Maria Flho, Leandro Quesada, José Roberto Torero e Vitor Birmer. Mas isso não foi um respeito a hierarquia, visto que o presidente manda mais do que o técnico do time?

O interessante é perceber que o técnico de futebol sabe, mais do que a própria diretoria, se o jogador está apto para jogar, tanto em condições físicas, quanto psicológicas. E, nesta hierarquia de escalação do time, o técnico possui maior responsabilidade de decisão do que a diretoria (obviamente, esta tem que ser consultada em casos mais complexos, como no de Neymar, devendo pensar no bem do atleta e no trabalho em equipe em primeiro lugar, o que não ocorreu). Para esclarecer esta questão, remete-se à declaração final de Beting em sua coluna previamente referenciada:

"O melhor negócio que há numa empresa de sucesso é respeitar hierarquias e ter um grupo unido em torno de um objetivo. O pior negócio que pode existir é colocar o negócio acima do trabalho em equipe. Foi o que aconteceu. E pode ser o início de um grande problema para ser administrado pelo clube nos próximos meses. A gestão de talentos é uma profissão extremamente carente dentro do futebol brasileiro."

Para encerrar este post, existem dois vídeos sobre hierarquia e respeito à liderança. Um deles é este, que não pôde ser incorporado, falando sobre os principais aspectos da liderança. O outro, mais técnico, repassa alguns conceitos práticos do respeito à hierarquia, relacionada à Polícia e Direitos Humanos, em gravação feita para a DHnet - Rede Direitos Humanos e Cultura.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Respeito à hierarquia nas organizações - Caso Neymar x Dorival Júnior

Muitas organizações existentes na esfera capitalista possuem um chefe, um líder para coordenar as ações da empresa, para organizar as tarefas e verificar se estas estão sendo feitas da maneira correta, além de promover a rotatividade dos funcionários para outras funções e, em casos negativos, destituí-los de alguns cargos. Pode-se dizer que demonstrar respeito (ou seja, ter "apreço, atenção, consideração" - Dicionário Michaelis on line - não confundindo com ter medo de algo) à hierarquia é um ponto importante para que haja um bom relacionamento entre colaboradores e para a manutenção de um bom clima organizacional.

Os times esportivos (no caso deste post, o futebol) podem ser comparados a estas organizações, principalmente no âmbito competitivo, que abrange a comissão técnica e  os jogadores do elenco: o técnico de uma equipe esportiva sabe, através de sua experiência de vida e de técnicas apreendidas ao longo de sua carreira, quando o atleta não está em condições de desempenhar suas funções da maneira desejada, e o jogador, geralmente com menos vivência do que o técnico, precisa entender a hierarquia que é posta e dar suas opiniões a respeito do time, sem, no entanto, se portar como "fominha", desemerecendo os outros jogadores.

Este foi o caso de Neymar, atacante do Santos e da Seleção Brasileira, conhecido pelos dribles desconcertantes, pelo suposto menosprezo com os adversários e pela participação em polêmicas, como a bagunça do Twitter e o desentendimento com um jogador do Ceará. Na última quarta-feira, no jogo contra o Atlético Goianiense válido pelo Campeonato Brasileiro, o jogador se envolveu em mais uma confusão, discutindo com Dorival Junior, treinador do time, e sendo manchete negativa em vários sites (Fanáticos por Futebol, Globo Esporte e Ig, por exemplo) e até na imprensa internacional, como o jornal espanhol As.

A partida estava em 3 a 2 para o time santista quando o atacante sofreu um pênalti e, quando ia se posicionar para a cobrança, recebeu um recado do treinador para que deixasse Marcel bater, o que deixou o atacante irritado. Como consequência, Neymar começou a xingar o treinador, discutir com o capitão Edu Dracena e fazer firulas desnecessárias. A atitude do atacante decepcionou também o técnico do adversário Renê Simões, em fala concedida ao GloboEsporte.com, no link já citado:

"Estou extremamente decepcionado. Estou desde garoto no futebol e poucas vezes vi alguém tão mal-educado desportivamente. Sempre trabalhei com jovens e nunca vi nada assim. Está na hora de alguém educar esse rapaz, ou vamos criar um monstro. Estamos criando um monstro no futebol brasileiro."

No dia seguinte, o Santos anunciou uma multa ao jogador e Neymar foi a público se desculpar desta situação infeliz; antes, na própria noite de quarta, ele já tinha posto uma nota no seu perfil no Twitter a respeito do caso. O que resta de lição deste incidente é o respeito que se deve ter para com a hierarquia destinada, não só no futebol, mas numa empresa. É necessário, para o bem coletivo, quando há uma situação difícil individual, que esta pessoa deixe outro fazer o trabalho; que, no caso de Neymar, a pessoa se afaste dos focos de luz das câmeras e que se volte para o foco mais importante: o do respeito aos superiores e o do profissionalismo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Marketing Esportivo chega ao interior - Centenário do Noroeste

Como os aficcionados por futebol (e até quem não os são) devem saber que hoje, no dia 1º de setembro, se comemora o centenário do Sport Club Corinthians Paulista. A equipe de marketing do clube ficou famosa por desenvolver várias campanhas ao longo dos últimos anos, como a aquisição de novos contratos de patrocínio para o time através da imagem do principal atleta do time (em relação a visibilidade), o atacante Ronaldo; os slogans "Eu nunca vou te abandonar, porque te amo, eu sou Corinthians", "Aqui tem um bando de loucos, loucos por ti Corinthians", e não poderia deixar passar em branco a data comemorativa mais importante da história do time. Várias ações foram feitas, como um hotsite dentro do portal do clube, a República Popular do Corinthians, que compara sua grande torcida (a 2ª do Brasil) a uma nação, e o tão sonhado e desejado anúncio do estádio do time, que possui chances de sediar a abertura da Copa do Mundo 2014.

Mas a atuação do marketing esportivo ultrapassou a barreira dos grandes centros nacionais e chega, pouco a pouco, ao interior dos Estados. Outro time que está comemorando 100 anos de fundação hoje é o Esporte Clube Noroeste, da cidade de Bauru/SP. Com um alcance de mídia menor do que o atual vice-líder do Campeonato Brasileiro, o time também comemora este aniversário com festa: o chamado "Centenário Solidário", que acontecerá na tarde-noite de 01/09, destacado na homepage do clube. O ingresso é 1kg de alimento não perecível, que será destinado a entidades carentes da cidade.


No site do Noroeste, há um espaço destinado somente ao marketing do clube, com uma matéria dedicada ao Projeto Centenário, mostrando os colaboradores do clube no dia-a-dia, os espaços para patrocínio nos uniformes, o portifólio completo do estádio do Noroeste e o conteúdo dos kits comemorativos do centenário (para pessoas físicas e jurídicas), além de outros produtos do centenário como camisetas retró e outras especialmente feitas para esta data especial. Além disso, em parceria com o Jornal da Cidade, foi criada a logomarca do centenário (presente na figura acima), relembrando os tempos de glória da equipe.

Um grande lamento a se fazer é em relação aos perfis oficiais (ou não) do time no Twitter, que estão desatualizados e sem promoções e cobertura dos acontecimentos do centenário do time (pode-se ver isto no Noroeste Bauru, Noroeste 100 Anos, EC Noroeste e Noroeste 100), algo que as rádios locais estão fazendo, como a 94 FM.

Falando ainda na rede de microblog Twitter, Corinthians e Noroeste se revezam na liderança da lista dos Trending Topics Brazil e World, ou seja, são os assuntos mais comentados. Segundo a reportagem do UOL Esporte, os torcedores de times rivais ao Corinthians se juntaram ao Noroeste para exaltar virtudes do time bauruense que o da capital não tem, como a aquisição de um estádio próprio e de não conseguir um título importante internacionalmente, nem nas redes sociais (na foto, pode-se ver que o Noroeste lidera os TT's às 13h05 e o Corinthians está em segundo). Aqui estão alguns exemplos recolhidos do Twitter no começo da tarde de hoje:

@duserrano Esporte Clube Noroeste, 100 anos de história! E com estádio próprio! Parabens! #100ternada

@cadublanco a prova que corintiano ta indo pela inclusao digital .. 100 anos e quem ta primero nos TT's é o Esporte Clube Noroeste hahaha #fail

@fabriciocarraro Não se fala em outra coisa se não no grande time que comemora seus #100anos hoje !!! Parabéns ESPORTE CLUBE NOROESTE!! #UmTimeQueTemEstadio


Com estes fatos apresentados, pode-se dizer que, mesmo de forma tímida, o marketing esportivo está chegando ao interior dos estados e se consolidando como fonte de renda, de visibilidade e de credibilidade aos clubes.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Gestão de crises na seleção brasileira (II) - Twitter dos jogadores

Este post é uma continuação do de sábado, ainda repercutindo sobre a eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo e sobre o comportamento dos jogadores após a derrota de 2 a 1 para a Holanda.

Mesmo com toda a operação de isolamento imposta pelo então técnico Dunga, houve algumas brechas para que os jogadores postassem suas impressões através do microblog Twitter, logicamente com uma série de assuntos proibidos de se falar ao público do site. Falavam praticamente de suas alegrias ao vencer jogos importantes e a expectativa para as próximas fases da competição.


Após a eliminação na Copa, alguns jogadores, até o fechamento deste post, ainda não voltaram a postar no Twitter, como o goleiro Júlio Cesar e os atacantes Luís Fabiano, Grafitte, Nilmar e Robinho. Outros atletas postaram agradecimentos aos internautas que mandaram posts de incentivo e de tristeza pela derrota sobre a Holanda, como o volante Gilberto Silva.


Os dois jogadores mais polêmicos desta Copa, em se tratando de Twitter, são o volante Felipe Melo e o meio-campista Kaká. O primeiro foi considerado, pra muitos, o "vilão" da eliminação, como já dito aqui no sábado. No Twitter, ele se manifestou no dia 5 de julho, nesta sequência de quatro posts (colocada na ordem do discurso, não na ordem de postagem):

Gente, obrigado pelas mensagens de apoio e carinho. Pessoas desejando força, agradecendo pelo empenho e isso é muito importante nesse momento de superação. Estou muito triste por nossa eliminação.

Vou conversar com todos no momento certo. Me ouçam antes de julgar. Por enquanto quero descansar com a minha família.
É impossível, mas Deus pode!
 
Este "pré-julgamento" citado pelo jogador é devido à falta violenta que cometeu sobre o colega holandês e que causou sua expulsão do jogo. Como se pode ver, Felipe não mostra arrependimento pela entrada cometida e ainda pede que as pessoas o ouçam antes de julgar, sendo que a própria imagem do lance mostra o pisão do brasileiro.

Já Kaká ocasionou uma polêmica no "mundo do Twitter" graças a sua esposa Carol Celico, que relativizou a eliminação do Brasil, apoiando uma mensagem que dizia: "Mãe e filho caem da ambulância, morrem os dois, e tem gente chorando por 22 milionários" (por que não seriam 23) e até fez piada com a célebre música da Branca de Neve: "Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou". Vendo as críticas pelas declarações, Celico desabafou no dia 2 de julho, às 4h02 e às 7h18 da manhã:

4h02: Acho mto importante vermos o que as pessoas estao pensando!! Abra sua cabeca e seu coracao! Com certeza e melhor encarar td c bom humor!
7h18: Perdao se ofendi alguem! Nao fiz para escandalizar. Torci, sofri junto, acreditei ate o final! Agora continuamos vivendo! Bjos no coracao!

Quem quiser ver mais detalhes sobre esta confusão no Twitter, é só clicar aqui ou aqui também! É necessário, portanto, tomar cuidado quando se posta algo no Twitter ou quando se faz alguma coisa na frente de um grande público: as consequências podem ser desastrosas!!

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Por conta do feriado de 09 de julho, o blog voltará às suas atividades na segunda-feira, dia 12 de julho!

sábado, 3 de julho de 2010

Por que assumir a "responsa" é tão difícil? - Gestão de crises na seleção brasileira

Como a grande maioria dos brasileiros (amantes ou não do futebol) sabem, o Brasil perdeu de 2 a 1 para a Holanda e foi eliminado ontem da Copa do Mundo na fase das quartas-de-final. Quando estas eliminações acontecem, o Brasil se consterna e tenta, através de suas observações e as dos comentaristas de televisão, rádio e Internet, entender o que aconteceu de errado e apontar um ou mais culpados pela derrota.

No jogo contra a Holanda, houve dois erros cruciais para a derrota brasileira: no primeiro gol, o goleiro Julio Cesar saiu mal do gol, a bola desviou no volante Felipe Melo e entrou. A FIFA, no decorrer da partida, constou o gol contra do brasileiro, mas hoje validou o gol para o jogador holandês Sneijder. O segundo erro foi uma entrada violenta de Felipe Melo em Arjen Robben, aos 20 minutos do segundo tempo, em que o jogador brasileiro foi expulso.

Após o jogo, os dois jogadores deram explicações sobre seus erros de maneiras completamente diferentes. O goleiro, conforme esta notícia, estava visivelmente abalado e admitiu seu erro no jogo. Segundo as próprias palavras do jogador (grifos meus), “A cobrança no Brasil é muito grande, em todas as competições o Brasil entra para ganhar. Mas fica aí a tristeza de todos. Estou colocando minha cara à tapa, falando em nome do grupo. É um sentimento muito triste, pois estávamos todos confiantes no hexa."

Já o volante Felipe Melo, como mostra esta outra matéria, não chorou durante as entrevistas e não se achou merecedor do cartão vermelho decorrente da entrada violenta, chamando esta de "lance normal" e apontando o árbitro japonês da partida como "rude". Em relação ao complexo de culpa, ele mesmo diz (grifos meus) que "Não tenho que receber toda a culpa. É um grupo. Equipe é coletivo. Tenho minha parcela de culpa como cada um aqui tem. Eu peço desculpas não pela minha entrada, mas porque falhamos."

O interessante é perceber como cada jogador se comporta ao gerir uma crise, tanto da sua imagem quanto da própria seleção. Enquanto Julio Cesar fala sobre a cobrança e dá sua cara pra bater diante da torcida, Felipe Melo se desculpa perante o Brasil também, mas não reconhece seu erro na entrada desleal para cima de Robben.

Todo profissional, de cargos de chefia a jogadores profissionais, deve evitar o erro, fazendo seu papel de maneira eficiente. Porém, errar é humano e reconhecê-lo, mais ainda. Um exemplo disso foi a propaganda equivocada do Pão de Açúcar veiculada pelo jornal Folha de São Paulo um dia após a classificação do Brasil para as quartas-de-final, que passava um conteúdo oposto: o de tristeza após a eliminação. A empresa agiu rápido, assim como foi a repercussão do erro pelas mídias sociais: divulgou uma nota, juntamente com o anúncio correto, neste mesmo jornal. O que se prova é a importância de, numa crise, reconhecer os erros cometidos e, assim, gerir esta situação de maneira nenos desastrosa.