A cada ano, promissores artistas surgem como meteoros, demonstrando (ou não) seus talentos, simpatia e beleza, através das mídias tradicionais (encontros com olheiros espalhados por supermercados e shoppings, programas de calouros na televisão, promoções feitas em canais de rádio) ou das tão faladas mídias sociais, principalmente pelo microblog Twitter e pelo site MySpace.
Jovens e cheios de energia, muitos atingem patamares significativos de sucesso em pouco tempo e conseguem se manter livres das polêmicas, como o cantor Luan Santana e o jogador Paulo Henrique Ganso; porém, uma parte destes neo-profissionais da arte acabam se envolvendo em escândalos, seja com drogas, bebidas ou pela troca constante de parceiros num relacionamento. Alguns exemplos conhecidos: Britney Spears, Paris Hilton, Amy Winehouse e os brasileiros Ronaldo Fenômeno (mais necessariamente com os travestis) e Daniela Cicarelli (graças ao Youtube).
Mas por que a mídia teria interesse nesta exposição de assuntos que, num primeiro momento, seriam particulares? Neste caso, uma das óticas possíveis é a de Foucault, citada por Ieda Tucherman no artigo Michel Foucault, hoje, ou ainda: do dispositivo de vigilância ao dispositivo de exposição da intimidade (2005, p. 03, grifos da autora):
"Para exemplificar seu modelo, Foucault elabora a análise do panóptico, cujo interesse se evidencia por si mesmo: aparece como uma lógica tecnológica que, distribuindo espaços e olhares produz um sistema capaz de organizar os princípios de disciplina e vigilância, já que o olhar do outro, sendo sempre possível enquanto vigilância, geraria um sistema de interiorização das regras e das normas, fazendo surgir os chamados corpos dóceis."
Resumindo, a mídia seria esta lógica tecnológica que produz este sistema que, muitas vezes, impõe princípios de vigilância e disciplina, como a contratação de fotógrafos que realizam um trabalho do tipo paparrazzi, ou seja, para surpreender o artista em momentos pouco confortáveis ou esperados. Ainda neste sistema estão os programas de televisão que possuem um espaço para falar sobre a vida das celebridades, que pode ser total, no caso do TV Fama (Rede TV!) e do Vídeo Show (TV Globo), ou parcial, como o Mulheres (TV Gazeta) e Hoje em Dia (Rede Record).
Mas esta linda vida de juventude e de liberdade não atrai somente os mais novos. Artistas com mais tempo de idade e de carreira, reconhecidos nacionalmente e com vastos currículos no cinema, no teatro e na televisão, começam a buscar o rejuvenescimento da própria imagem através de plásticas, de um vestuário mais ousado para a idade. Essa prática pode, sim, ser saudável e benéfica para o lado pessoal e profissional do artista, mas é necessário, assim como para a maioria das ações humanas, ter limites.
Este post surgiu através do Twitter, vendo um tweet da querida Márcia Ceschini que falava exatamente desta exposição do exarcebado rejuvenescimento de artistas com idade avançada. E um grande exemplo desta atitude é da atriz Susana Vieira, que já tem mais de sessenta anos no RG, porém não os mesmos no aspecto corporal: a artista da Rede Globo já fez lipoesculturas, possui um figurino ousado para a idade e desfila como destaque/madrinha de bateria em escolas de samba cariocas no Carnaval, além de ficar com os seios à mostra durante lançamento de seu CD no programa Domingão do Paustão, como visto a seguir. Ou seja, talvez ela estaria tentando negar a sua própria idade, se apegar a ser o que não é.
Como se não bastasse isso, Susana teve seu terceiro casamento em 2006 com o policial Marcelo Silva, 28 anos mais novo, que a traiu por duas vezes - em uma delas, foi acusado de agredir uma mulher - antes de se separarem. O policial morreria meses depois, de overdose, juntamente com a namorada. Logicamente, todos estes escândalos foram prontamente divulgados e explorados pelo sistema tecnológico da mídia. A partir destas fatos, qual seria o grande problema desta conservação da juventude pelos artistas mais experientes? A própria Márcia Ceschini mostra uma linha de resposta:
"Apesar delas serem artistas e viverem da exposição e beleza, sou a favor de comportamento digno. Mulheres como Susana Vieira que tem um comportamento diferente e se vestem vulgarmente eu não concordo. Não é feminismo ou preconceito. Mas cada um com sua idade."
Para finalizar este post, é preciso que esses artistas tenham este comportamento digno, ou seja, entender o sistema de vigilância imposto pela mídia e fazer uma interiorização das regras e normas (dita no começo deste texto), com a ajuda de assessores de imprensa e de imagem, para que o resgate da juventude não morra nos escãndalos.
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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
sábado, 11 de setembro de 2010
Como realizar a Educomunicação? - JC na Escola
Nos últimos 20 anos, a discussão de um conceito vem ganhando força nos fóruns e seminários: a junção de duas áreas, de duas importantes interfaces, que se torna, para alguns, uma nova área do saber: a Educomunicação.
Este campo de ação possui várias vertentes, como relata Aparici (1996), citado por Caprino, Rossetti e Goulart no artigo Comunicação e sociedade: faces e interfaces inovadoras, presente no livro Comunicação e Inovação: reflexões contemporâneas (2008, p. 101)*:
- ensinar sobre tecnologia e meios de comunicação;
- realizar com os alunos uma simulação da atividade jornalística;
- analisar os meios e criticá-los;
- mesclar aspectos das três características anteriores.
Há vários modelos de atividades para os profissionais desta área. Dentre eles, está o gesto de levar os veículos de comunicação até as escolas, principalmente os impressos como o jornal. Esta prática é muito antiga, começada nos fins do século XIX e início do século XX na Europa, chegando ao Brasil há aproximadamente 40 anos. O objetivo, a princípio, é simples: incrementar a leitura e a escrita nos alunos, professores e funcionários, incutindo-lhes o hábito de ler. Um exemplo desta prática da educomunicação está no projeto JC na Escola, vencedor do Prêmio Atenção em 2009.
Segundo o site do projeto no jornal, esta iniciativa teve sua primeira experimentalização em 2002, inspirada nas práticas feitas pelo jornal Vale Paraibano e em outros jornais do mundo, como já visto acima. Em 2005, o projeto teve o referendo da UNESCO e foi implantado definitivamente, levando o jornal até as salas de aula de mais de 100 escolas públicas no âmbito estadual:
"(...) através dos professores multiplicadores, possibilita o debate, a análise crítica dos alunos sobre os temas atuais e serve de referência para todas as disciplinas curriculares e os temas transversais. Em 2006, além da importante parceria com a Secretaria da Educação do Estado e a ação que já é desenvolvida com a Diretoria de Ensino – Região Bauru, as Diretorias de Ensino Regiões Botucatu e Jahú passaram a agregar também o programa."
Várias empresas se tornaram parceiras-patrocinadoras do projeto ao longo dos anos, entre elas a UNIMED, a Tiliform, a Ultragaz e Gás Afonso, além do Sindicato dos Contabilistas de Bauru e Região (SindCom) e Escritório Regional da Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp), que ajudam na distribuição dos jornais às escolas estaduais e municipais (estas últimas começaram a ser contempladas com o projeto em 2006).
Dentre as atividades feitas pelo programa educativo, há a chamada Mediação da Leitura e a iniciativa aos alunos envolvidos de serem co-autores de livros, tendo a interação entre escolas e o fortalecimento de valores ligados ao civismo e patriotismo.
Outro projeto atrelado ao JC na Escola são as Praças de Leitura JC, consideradas inéditas no mundo. Segundo o jornal, esta ação "visa, em parceria com os estabelecimentos de ensino, criar um espaço diferenciado de leitura na própria escola. Cada instituição vai receber um expositor de jornal e uma bancada para que os alunos possam manusear os exemplares. “A idéia é estimular a leitura em um lugar prazeroso, agradável”, conta Purini, ressaltando que os jornais ficarão arquivados, funcionando como um espaço para pesquisa dos alunos."
Estas iniciativas de educomunicação foram proveitosas para o jornal, pois possibilitaram-lhe compartilhar, simultaneamente, as duas faces da relação jornal-escola: o incentivo à cidadania, a ampliação da leitura e do número de consumidores do próprio veículo, além de construir uma imagem sólida da organização neste aspecto educacional.
*CAPRINO, Mônica Pegurer (org.) Comunicação e inovação: reflexões contemporâneas. São Paulo: Paulus, 2008.
Este campo de ação possui várias vertentes, como relata Aparici (1996), citado por Caprino, Rossetti e Goulart no artigo Comunicação e sociedade: faces e interfaces inovadoras, presente no livro Comunicação e Inovação: reflexões contemporâneas (2008, p. 101)*:
- ensinar sobre tecnologia e meios de comunicação;
- realizar com os alunos uma simulação da atividade jornalística;
- analisar os meios e criticá-los;
- mesclar aspectos das três características anteriores.
Há vários modelos de atividades para os profissionais desta área. Dentre eles, está o gesto de levar os veículos de comunicação até as escolas, principalmente os impressos como o jornal. Esta prática é muito antiga, começada nos fins do século XIX e início do século XX na Europa, chegando ao Brasil há aproximadamente 40 anos. O objetivo, a princípio, é simples: incrementar a leitura e a escrita nos alunos, professores e funcionários, incutindo-lhes o hábito de ler. Um exemplo desta prática da educomunicação está no projeto JC na Escola, vencedor do Prêmio Atenção em 2009.
Segundo o site do projeto no jornal, esta iniciativa teve sua primeira experimentalização em 2002, inspirada nas práticas feitas pelo jornal Vale Paraibano e em outros jornais do mundo, como já visto acima. Em 2005, o projeto teve o referendo da UNESCO e foi implantado definitivamente, levando o jornal até as salas de aula de mais de 100 escolas públicas no âmbito estadual:
"(...) através dos professores multiplicadores, possibilita o debate, a análise crítica dos alunos sobre os temas atuais e serve de referência para todas as disciplinas curriculares e os temas transversais. Em 2006, além da importante parceria com a Secretaria da Educação do Estado e a ação que já é desenvolvida com a Diretoria de Ensino – Região Bauru, as Diretorias de Ensino Regiões Botucatu e Jahú passaram a agregar também o programa."
Várias empresas se tornaram parceiras-patrocinadoras do projeto ao longo dos anos, entre elas a UNIMED, a Tiliform, a Ultragaz e Gás Afonso, além do Sindicato dos Contabilistas de Bauru e Região (SindCom) e Escritório Regional da Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp), que ajudam na distribuição dos jornais às escolas estaduais e municipais (estas últimas começaram a ser contempladas com o projeto em 2006).
Dentre as atividades feitas pelo programa educativo, há a chamada Mediação da Leitura e a iniciativa aos alunos envolvidos de serem co-autores de livros, tendo a interação entre escolas e o fortalecimento de valores ligados ao civismo e patriotismo.
Outro projeto atrelado ao JC na Escola são as Praças de Leitura JC, consideradas inéditas no mundo. Segundo o jornal, esta ação "visa, em parceria com os estabelecimentos de ensino, criar um espaço diferenciado de leitura na própria escola. Cada instituição vai receber um expositor de jornal e uma bancada para que os alunos possam manusear os exemplares. “A idéia é estimular a leitura em um lugar prazeroso, agradável”, conta Purini, ressaltando que os jornais ficarão arquivados, funcionando como um espaço para pesquisa dos alunos."
Estas iniciativas de educomunicação foram proveitosas para o jornal, pois possibilitaram-lhe compartilhar, simultaneamente, as duas faces da relação jornal-escola: o incentivo à cidadania, a ampliação da leitura e do número de consumidores do próprio veículo, além de construir uma imagem sólida da organização neste aspecto educacional.
*CAPRINO, Mônica Pegurer (org.) Comunicação e inovação: reflexões contemporâneas. São Paulo: Paulus, 2008.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Geração autêntica e com liberdade de expressão? - Caso Fiuk
Este post foi inspirado num comentário feito por esta pessoa que vos fala durante o desenvolvimento teórico da Indústria Cultural, na X INACARP (Integração Acadêmica dos Calouros de Relações Públicas), no dia 17 de agosto, no campus da UNESP/Bauru. Na ocasião, durante a explanação dos conceitos de imaginário e fantasia, chegou-se à parte de considerarmos a questão das imagens como modelos (herois, mitos de auto-realização) - indústria "de massa" como provedora dos mitos. Como exemplos, foram citados a modelo Gisele Bündchen, o publicitário e apresentador de televisão Roberto Justus e o cantor Fiuk. Este último nome é o ponto de partida do post de hoje.
Na INACARP, falei, em tom jocoso, da questão de ele ser realmente um modelo de beleza (para muitas meninas, ele o é) e, depois da apresentação da teoria, um start veio à cabeça: será que estes novos modelos de protagonismo juvenil na mídia fazem jus a este título? Como a Comunicação mostra a imagem e as ações destes novos meninos que invadem as telinhas do computador e da televisão e "conquistam" o coração de muitas meninas?
Como primeiro olhar, pode-se falar de Filipe Galvão, um garoto de 19 anos mais conhecido pelo seu nome artístico: Fiuk. O vocalista da Banda Hori e ator da Rede Globo é filho do também cantor Fabio Júnior e ficou mais conhecido do grande público ao atuar e possuir uma música na abertura do folhetim teen Malhação. Fiuk se tornou rapidamente um sonho de consumo para muitas meninas, principalmente adolescentes; porém, em suas entrevistas, ele mostra várias respostas incoerentes quanto se trata do âmbito comunicacional.
Em entrevista ao Portal IG, o cantor declara que a geração a qual pertence possui uma liberdade total de se expressar, que a "galera" pode vestir e falar o que quer e que, citando palavras dele, "por isso é mais autêntica". Mas esta autenticidade existe de verdade? Como é que foi que Fiuk ficou conhecido do público? Através das mídias (principalmente pela televisão e pela Internet) e pela ação da Indústria Cultural, através do imaginário e da fantasia regressiva. Esta última tem a função de separar as concepções da realidade dos desejos, como os de busca do homem ideal por muitas meninas que acabam tendo amores platônicos pelos astros e estrelas das mídias, providos por quem? Sim, pela Indústria Cultural.
Outro ponto que chamou a atenção nesta entrevista foi a questão da afirmação sobre a liberdade de expressão, que todos podem falar o que quiserem. Depois do fim da ditadura militar no Brasil, esta liberdade, com exceções, ficou mantida, e isso há mais de 20 anos, antes mesmo de Fiuk nascer. E uma das exceções agora ditas veio exatamente do vocalista da Banda Hori.
No mês de julho, Fiuk teve um bate-boca com o videologger Felipe Neto por ridicularizá-lo em um de seus vídeos e de inventar o verbo "fiukar" que, segundo Felipe, é "ato ou efeito de de agir como um verdadeiro retardado, para iludir uma penca de adolescentes igualmente retardadas, de modo a deixá-las com as coxas úmidas pensando que são amadas por um ídolo babaca", causando, assim, a fúria dos fãs da Banda Hori e a resposta do cantor. A confusão inteira pode ser vista aqui e aqui também. Não está em discussão aqui saber quem está certo, e Fiuk realmente precisou se defender (mas não trocar tantas farpas na rede mundial de computadores) mas sim a liberdade de expressão tão falada pelo cantor acabou se virando, de certa maneira, contra ele. Como o velho ditado diz, a pessoa fala o que quiser, mas poderá ouvir o que ela não desejaria.
Na INACARP, falei, em tom jocoso, da questão de ele ser realmente um modelo de beleza (para muitas meninas, ele o é) e, depois da apresentação da teoria, um start veio à cabeça: será que estes novos modelos de protagonismo juvenil na mídia fazem jus a este título? Como a Comunicação mostra a imagem e as ações destes novos meninos que invadem as telinhas do computador e da televisão e "conquistam" o coração de muitas meninas?
Como primeiro olhar, pode-se falar de Filipe Galvão, um garoto de 19 anos mais conhecido pelo seu nome artístico: Fiuk. O vocalista da Banda Hori e ator da Rede Globo é filho do também cantor Fabio Júnior e ficou mais conhecido do grande público ao atuar e possuir uma música na abertura do folhetim teen Malhação. Fiuk se tornou rapidamente um sonho de consumo para muitas meninas, principalmente adolescentes; porém, em suas entrevistas, ele mostra várias respostas incoerentes quanto se trata do âmbito comunicacional.
Em entrevista ao Portal IG, o cantor declara que a geração a qual pertence possui uma liberdade total de se expressar, que a "galera" pode vestir e falar o que quer e que, citando palavras dele, "por isso é mais autêntica". Mas esta autenticidade existe de verdade? Como é que foi que Fiuk ficou conhecido do público? Através das mídias (principalmente pela televisão e pela Internet) e pela ação da Indústria Cultural, através do imaginário e da fantasia regressiva. Esta última tem a função de separar as concepções da realidade dos desejos, como os de busca do homem ideal por muitas meninas que acabam tendo amores platônicos pelos astros e estrelas das mídias, providos por quem? Sim, pela Indústria Cultural.
Outro ponto que chamou a atenção nesta entrevista foi a questão da afirmação sobre a liberdade de expressão, que todos podem falar o que quiserem. Depois do fim da ditadura militar no Brasil, esta liberdade, com exceções, ficou mantida, e isso há mais de 20 anos, antes mesmo de Fiuk nascer. E uma das exceções agora ditas veio exatamente do vocalista da Banda Hori.
No mês de julho, Fiuk teve um bate-boca com o videologger Felipe Neto por ridicularizá-lo em um de seus vídeos e de inventar o verbo "fiukar" que, segundo Felipe, é "ato ou efeito de de agir como um verdadeiro retardado, para iludir uma penca de adolescentes igualmente retardadas, de modo a deixá-las com as coxas úmidas pensando que são amadas por um ídolo babaca", causando, assim, a fúria dos fãs da Banda Hori e a resposta do cantor. A confusão inteira pode ser vista aqui e aqui também. Não está em discussão aqui saber quem está certo, e Fiuk realmente precisou se defender (mas não trocar tantas farpas na rede mundial de computadores) mas sim a liberdade de expressão tão falada pelo cantor acabou se virando, de certa maneira, contra ele. Como o velho ditado diz, a pessoa fala o que quiser, mas poderá ouvir o que ela não desejaria.
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