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terça-feira, 27 de agosto de 2013

Amores e contratos perigosos - Cinema, sociedade do consumo e marketing oculto

Por Maíra Masiero

"Compre agora! Tenha agora! Não deixe pra depois": são com essas palavras (e outras semelhantes) que o mundo contemporâneo capitalista é revestido, de uma forma perigosa e pode trazer consequências até mesmo no modelo atual de socialização, como mostra Atilio Marchesini Jr. no artigo O modelo de vida alienante da "Sociedade do Consumo" (2012, p. 132):

"A melhor definição para pensar a sociedade atual é a de uma “Sociedade de Consumidores”, entretanto, não falamos do consumo natural e necessário para a sobrevivência, mas aquele consumo desnecessário, criado pela publicidade, indicado por símbolos e avalizado pela moda e pela padronização que o capitalismo propõe. A sociedade consumista se relaciona a um novo modelo de socialização, baseado na perda de valores essenciais para o ser humano real, ou seja, a valorização de sentimentos e ideais que sejam importantes para a vida em grupo, em família, enfim, em sociedade."

Desta forma, o consumismo desenfreado (e sua psicologia), vivido principalmente na contemporaneidade, é implicitamente (ou mesmo explicitamente) enaltecido pela mídia em geral, seja em programas televisivos (nas ações comerciais no intervalo e durante os seus quadros e matérias), em comerciais ou no campo visual da comunicação.

Contudo, há alguns casos em que se usa os veículos do próprio consumismo para denunciar essas características e levar os receptores a uma reflexão sobre o assunto. Um deles é o do filme norte-americano Amor por Contrato, de 2009, tendo Demi Moore como atriz mais conhecida do elenco, e que conta a história de uma família rica, feliz, bem estruturada, que vive num mundo de luxo e numa esfera aparentemente perfeita, como a de vários comerciais de margarina (outro estereótipo cabível neste ponto).

Por que "aparentemente perfeita"? Primeiramente, a família não é uma família de verdade, e sim uma moção arquitetada por uma empresa de marketing disposta a vender seus produtos de forma eficaz e, para esses fins, resolveu colocar famílias em mercados de luxo para dar vida aos produtos e causar um forte desejo de compra aos vizinhos, que buscariam ter o mesmo (ou um maior) nível de vida do que os Jones.



Deixando de lado o desfecho do filme, para não tirar a curiosidade de quem deseja assisti-lo, o fato é que Amor por Contrato mostra exatamente a dimensão que o consumismo traz para grande parte do mundo contemporâneo: a valorização exagerada do status e do poder em detrimento a outros valores, que são teatralizados em função da obtenção de lucro pela empresa de marketing.

Vários artigos em blogs e sites relacionados à comunicação, quando tratam deste filme, também mostram a prática do marketing oculto plenamente representada, como uma forma de manipulação ideológica das pessoas (de forma consciente ou inconsciente), idealizando valores, conceitos e paradigmas. O fato é que a Sociedade do Consumo é predominante no campo comunicacional, prezando, geralmente, a ostentação do consumo em detrimento de outros valores.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Aula – audiovisual – de “institucionalismo”

Por Manoel Marcondes Neto


Fonte:  Tuga Filmes
Vale a pena aos atuais e futuros errepês assistir Flight (O vôo), filme de Robert Zemeckis, que está em cartaz, nos cinemas, por esses dias. É, indiretamente, uma "aula" de institucionalismo - eu não me assustaria se soubesse que seu patrocinador é a NTSB (National Transportation Safety Board), poderosa agência reguladora estadunidense que trata, entre outras coisas, da investigação das causas dos acidentes aéreos.

A outra agência - igualmente robusta -, a FAA (Federal Aviation Administration) passa de raspão no argumento, mas o sindicato dos pilotos não. E é abordada a questão das relações "com a imprensa e a mídia" (assim mesmo, separando uma coisa de outra coisa) em momentos de crise.

Responsabilidade é o "plot" - todo o tempo. Quem é o responsável? Pelo estado do avião, pelo estado do piloto, pelo estado - de ânimo - da tripulação, pelo acidente, pelas vidas perdidas, pela perda da aeronave, pela potencial falência da empresa aérea etc. etc. etc. Em certo ponto, o personagem principal - o piloto Whip Whitacker, interpretado pelo ator Denzel Washington, diz mais ou menos isso: - Eu traí a confiança pública (I've failed with the 'public trust').

É isso aí. "Public trust" é algo intangível, sutil, quase etéreo. E é com essa matéria 'prima' que os errepês - e jornalistas responsáveis - têm que lidar todos os dias. É bom que o entretenimento se preste também a dar aulas sobre coisas tão "invisíveis" quanto responsabilidade civil - algo que vem muito antes da responsabilidade - tão em moda - social.

Na minha opinião, os conflitos mostrados neste filme (tirando a noção errônea de que algumas drogas "curam" os efeitos de outras - ponto que provocou reações hilariantes na plateia de que participei ontem) e os modos de agir dos personagens do filme - e sobretudo a seriedade com que são retratadas as instituições - são exemplares e devem servir de inspiração, pois estão a anos-luz, por exemplo, da (respire fundo) Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes Aquaviários, Ferroviários e Metroviários e de Rodovias do Estado do Rio de Janeiro (a "popular" Agetransp), que significa - e é - um NADA, como podem atestar os mais de 16 milhões de almas que se movem no estado do Rio de Janeiro.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Intertextualidade e produções culturais - Turma da Mônica e Petrobrás nas telinhas do cinema

Um certo comunicador já dizia que "nada se cria, tudo se copia". Quando se trata de produções textuais ou até mesmo utilizando a linguagem não-verbal, pode-se dizer que esta frase está totalmente correta? Talvez o termo correto, em alguns casos, não seria necessariamente a cópia, o plágio, mas sim um intertexto, ou seja, um diálogo entre dois ou mais textos.

O postulado dialógico de Bakhtin (1929), citado por Koch, Bentes e Cavalcante (2007, p. 14)*, confirma esta afirmação: "um texto (enunciado) não existe nem pode ser avaliado e/ou compreendido isoladamente: ele está sempre em diálogo com outros textos." Foi isso que aconteceu entre dois tipos de produções textuais: o cinema e as histórias em quadrinhos.

Para celebrar a marca de 500 longas-metragens nacionais patrocinados pela Petrobrás, foram criados pequenos clipes pela companhia, homenageando produções do cinema brasileiro. O diferencial destes vídeos é a inserção de alguns personagens da Turma da Mônica em animações que relembram cenas, personagens e bordões marcantes dos filmes. Estes filmes foram veiculados durante a 19ª edição do evento Anima Mundi, um dos maiores expositores de animação do mundo, que terminou no último domingo, dia 31 de julho.

Os vídeos também estão disponíveis no canal oficial da Petrobrás no Youtube. Tropa de Elite, Cidade de Deus, O Homem que Copiava, Se Eu Fosse Você e Saneamento Básico são os filmes brasileiros homenageados pela companhia. Alguns títulos foram modificados, de acordo com a situação exposta no respectivo filme. Um exemplo disso é a participação da Mônica e do Cebolinha no filme "Tropa de Elite", de José Padilha. Ou seria "Tlopa de Elite"?


No filme, Cebolinha está discutindo com seus amigos sobre um plano infalível, ou melhor, uma estratégia para derrotar a Mônica (o que, nos quadrinhos de Maurício de Sousa, significa capturar Sansão, seu coelhinho de estimação). Durante o diálogo, Cascão não entende a palavra "estratégia" e Cebolinha mostra as diferentes traduções da palavra - em francês, inglês e grego.

Todos se divertem com a situação, Cebolinha se irrita e pronuncia a palavra "gorducha", referindo-se à Mônica. Quando isso acontece, a personagem do vestido vermelho aparece, juntamente com o personagem Capitão Nascimento. Os dois se irritam com Cebolinha, chamando-o de "fanfarrão" e utilizando o bordão "pede pra sair" - duas expressões muito utilizadas no filme "Tropa de Elite". Todos os outros meninos da turma fogem, mas Capitão Nascimento pede para Cebolinha ficar, pois iria levar uma sonora coelhada de Mônica, cena que encerra o filme e que antecipa a frase institucional da Petrobrás.

As marcas linguísticas dos personagens de Maurício de Sousa permanecem neste vídeo, como a troca da letra "r" por "l" pelo Cebolinha em frases como "Tá de bobeila?" ou na própria palavra "estratégia", mote do filme, que vira "estlatégia", entre outros; assim, também permanecem no filme os trejeitos rígidos e inflexíveis do Capitão Nascimento. A explicação que o Cebolinha profere à respeito do conceito de "estratégia" não foi invenção do cartunista, e sim um objeto de intertextualidade com uma das cenas do filme original, exibida a seguir. Enquanto Cebolinha não se impacienta com a pergunta de Cascão, o Capitão Nascimento "original" - personagem interpretado por Wagner Moura -oferece uma granada ao número 05 para que ele não durma durante a sua explicação.

 

Vendo estes exemplos, pode-se concluir que as marcas da intertextualidade estão presentes em praticamente todas as produções culturais pois, direta ou indiretamente, elas se espelharam em alguns aspectos de outros produtos e/ou produções já criadas.

* KOCH, Ingendore G. Villaça; BENTES Anna Christina; CAVALCANTE,. Mônica Magalhães. Intertextualidade: diálogos possíveis. São Paulo: Cortez, 2007.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Analisando os filhos do Brasil - Lula e Tiririca nas telas do cinema

* Neste post, não há a intenção de apontar candidatos para se votar no dia 03 de outubro, nem de fazer apologia a nenhum partido político. A única intenção do post é analisar o discurso de duas peças envolvendo os personagens citados no título do texto.

Está chegando um dos dias mais importantes do ano para a população brasileira: o próximo domingo, dia 03 de outubro será marcado pela realização das eleições para os cargos de Presidente, Governador, Senador, Deputados Estaduais e Federais. Este período eleitoral marca a despedida e a chegada de vários nomes na política, como, respectivamente, o presidente Luis Inácio Lula da Silva e o humorista Francisco Everardo Oliveira Silva, mais conhecido como Tiririca.

Lula está encerrando seu segundo mandato como presidente do Brasil, e sua história de vida, desde o nascimento até a entrada na Presidência, foi considerada como digna de um filme, no sentido mais literal da expressão. No primeiro dia de 2010, lançou-se o longa Lula, o Filho do Brasil, pela Globo Filmes. Apesar da bilheteria abaixo do esperado no Brasil, o filme foi escolhido para representar o Brasil na luta por uma das vagas de Melhor Filme Esrangeiro no Oscar 2011. O vídeo a seguir mostra o trailer oficial do filme.



Outro nome muito falado nestas eleições de 2010 é o de Tiririca, com seus bordões "Pior que tá, não fica!" e "O que é que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto" e com as acusações de que ele é analfabeto e que seria, no caso, inelegível. Mesmo assim, ele seria hoje o deputado mais votado do Brasil, e o segundo da história eleitoral.

As semelhanças entre as histórias de Lula e Tiririca, que vieram de famílias humildes no Nordeste, e considerando o bom humor do humorista, inspiraram o publicitário Pablo Peixoto (o mesmo autor de Dunga em Um dia de Fúria) a apresentar uma versão humorísitica do trailer do filme do presidente. O título da peça é Tiririca - O Filio do Braziu (SIC), que consegue dialogar com o trailer original em vários aspectos. O vídeo já teve, em dois dias, mais de 55 mil acessos.



Além de repetir cenas do original, com as legendas trocadas para a voz do Tiririca e do publicitário (intepretando as outras vozes), as legendas do filme foram adaptadas para o protagonismo do Tiririca, como:

- Original: 1º de janeiro de 2010 nos cinemas
- Tiririca: Estreia em Brasília - Primeiro de Janeiro de 2011

É importante perceber o dialogismo que há entre os dois vídeos, em que o segundo se utiliza do primeiro para, de forma lúdica, mostrar a história de Tiririca e, de forma até exagerada, comparar a história política dos dois personagens dos dois filhos do Brasil.