sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Fidelização dos públicos e parceria consolidada - O que o Roupa Nova pode ensinar às empresas

Começa-se este post com uma pergunta direta e, às vezes, difícil de ser respondida: o que faz uma empresa ser bem sucedida por muitos anos? São várias as perspectivas para que se possa responder a esta questão, e uma delas se refere a um termo muito falado na esfera organizacional: a fidelização. Mas o que esta palavra quer dizer? O conceito é explicado por George S. Day (1999, p. 146-147), citado por Braulio Alexandre Contento de Oliveira, Geraldo Luciano Toledo e Ana Akemi Ikeda no artigo Fidelização e valor: uma interdependência inequívoca (p. 02):

"Fidelidade em marketing significa um sentimento de afinidade em relação a produtos e marcas de uma empresa, que vai além da simples repetição de compra, embora este seja um indicador comumente utilizado como forma de se auferir a satisfação dos clientes - o qual, todavia, desconsidera fatores como conveniência, inércia e o grau de competitividade ou de concentração de um determinado mercado (Day, 1999, p. 146-147)."
 


Voltando-se para a esfera interna das organizações, a fidelização dos colaboradores à missão, às visões e aos valores da empresa, além da valorização dos funcionários mais antigos são ações importantes para que a organização possa se manter no mercado com a mesma inovação e credibilidade do tempo de sua fundação, e, consequentemente, esta fidelização é transferida também aos clientes.

Colocando em prática estes conceitos, há uma pergunta chave a se fazer com relação ao tema de hoje do post, iniciando este case: quantas bandas brasileiras e internacionais conseguem manter a mesma formação durante 30 anos ininterruptos? E destes poucos grupos, quais deles emplacam hits nas rádios até os dias de hoje e conseguem manter uma grande harmonia entre seus integrantes?

Estas perguntas são facilmente respondidas quando se fala do grupo brasileiro Roupa Nova, formado por Paulinho (voz, percussão e vocal), Serginho Herval (bateria, voz e vocal), Nando (baixo, voz e vocal), Kiko (guitarra, violões e vocal), Cleberson Horsth (teclados e vocal) e Ricardo Feghali (teclados, voz e vocal).

Segundo o site oficial, o grupo surgiu no final da década de 1970, influenciados pelo fenômeno Beatles que contagiava os jovens da época a formarem bandas e tocarem seus primeiros acordes nos clubes. Os seis integrantes do Roupa Nova, que estavam espalhados pelas bandas da época, se juntaram em 1980 e começaram a construir uma carreira vitoriosa, "atravessando estilos musicais, modismos e a roda viva das gravadoras", sendo recordistas em temas de novelas (mais de 35), além de produzirem vários trabalhos de outros artistas e participarem das gravações de temas incidentais históricos, como o Tema da Vitória.



Em muitas entrevistas, os músicos desta banda são questionados como se consegue manter uma boa convivência ao longo de três décadas e se houve algum período em que a relação entre os integrantes ficou balançada. Em entrevista concedida à Gazeta do Povo no dia 25 de junho de 2008, Paulinho responde a essas questões:

"Durante os 28 anos de carreira, o Roupa Nova manteve a sua formação original, fato que é muito raro no ramo musical. Qual foi o resultado desta convivência durante os anos?
Esses 28 anos têm muito de meta. A gente pensa como banda. Eu acho que é isso, a gente não pensa como artistas separados. O cara que monta uma banda, daqui a pouco só ele escreve, só ele compõe, só ele aparece. Então isso vai diluindo a banda.
Houve algum período em que a relação entre os membros ficou danificada ou balançada?
Não não, graças a Deus não. É aquele negócio, a gente discute diferenças e tudo mais, mas isso faz parte. São seis pessoas, é pior que um casamento. Em um casamento são duas, aqui são seis, e não tem sexo, que é pior ainda (risos). Então de qualquer maneira a gente está junto, trabalhando, cada um dá a sua idéia, tem a sua participação. Sempre para resolver alguma coisa a favor, sempre alguma coisa em prol do Roupa Nova."

Vendo estas declarações, é pertinente, sim, usar o exemplo do Roupa Nova para as empresas: as ações que a organização realiza precisam contar, de alguma maneira, com a participação da maioria, senão de todos os profissionais. Assim como a banda precisa pensar como banda, a empresa também necessita pensar como empresa, e não se deter apenas nas ações individuais, para, assim, conseguir a fidelização de seus públicos. Uma importante missão a ser cumprida com a ajuda dos profissionais responsáveis pelo relacionamento entre funcionários e pela comunicação interna, inclusive os Relações Públicas.

*Imagem retirada do site Roupanova.net. Acesso em: 13 jan. 2011, às 21h00.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Os cinco sentidos da marca - Marketing sensorial na otimização do relacionamento cliente-produto

Quando se é lançado algum produto ou uma nova campanha de uma marca já conhecida, é necessário tentar surpreender o consumidor/cliente com uma experiência única e que se torne inesquecível, a fim de que o relacionamento entre cliente e empresa se otimize, ou seja, que se possa aproveitar o máximo desta relação para que os dois lados se beneficiem e para que haja a fidelização do cliente.

Este post foi inspirado em duas peças de teatro diferentes, chamadas Performance Sensorial e Performance Horizontal, desenvolvidas pelo grupo paulistano Sensus (que possui, além do site, um blog oficial), que, segundo a descrição do perfil da companhia no blog, "através da literatura de grandes poetas, utilizando de diversas formas de toque, e muitas vezes privando o público da visão, as performances atuam em várias camadas do imaginário, ampliando gradualmente a percepção e despertando o interesse imediato pela obra dos grandes escritores."

Ou seja, com essas apresentações, o grupo teatral leva as pessoas a focarem suas atenções aos outros quatro sentidos do organismo e recordarem sensações esquecidas pela correria do dia-a-dia. Eles também têm um trabalho interessante focando o assunto do post de hoje: o marketing sensorial, com apresentações em eventos da Natura. Um vídeo mostrando trechos da Performance Sensorial pode ser visto a seguir.

 

De fato, o marketing sensorial é uma teoria e uma alternativa interessante para que os profissionais de marketing, comunicação e de áreas afins agregem um diferencial àquele produto ou àquela loja, através da valorização dos cinco sentidos do corpo humano, como descrevem Andressa Schneider Alves e Maria Izabel Costa no artigo
Uma Introdução aos Módulos Experimentais dos Produtos e Veículos de Moda, apresentado no 5º Congresso Internacional de Pesquisa em Design, ocorrido entre os dias 10 e 12 de outubro de 2009 em Bauru/SP (p. 1787):


"A teoria do marketing sensorial- Experiência do Sentido - faz apelo aos cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Seu objetivo é proporcionar prazer estético, beleza e satisfação por meio da estimulação sensorial. (...)
Segundo Ribeiro e Padovani (2006), os elementos primários estão associados aos cinco sentidos: cor e forma (visão), sonoridade, intensidade do som e ritmo (audição); textura e formas (tato); odores (olfato) e sabores (paladar). Combinando os elementos primários, forma-se um estilo. (...)Assim, o objetivo do marketing dos sentidos é estimular e captar a atenção dos cinco sentidos, proporcionando prazer estético ou excitação. (...)

Vários cases de sucesso deste marketing podem ser citados. Um deles é
da marca Avon que promoveu, no ano passado, o Espaço Sensações Avon International Fragrances no Shopping Morumbi, na capital paulista, em que o público pode conhecer informações institucionais da marca (explorando a visão) e experimentar as novas fragrâncias masculinas e femininas, utilizando-se do olfato.

Outro exemplo, só que se utilizando da audição para mostrar uma identidade musical ao cliente, quase que impondo um ritmo às suas compras, está presente na empresa Rádio Ibiza, especializada em elaborar programações musicais exclusivas para cada loja assessorada. Segundo o
site oficial da empresa, o objetivo principal é tratar o áudio como uma ferramenta essencial e importante para que a marca possa se desenvolver.

A empresa se tornou um grande sucesso no Brasil e no exterior, sendo notícia em vários jornais, revistas e chamariz para matérias sobre marketing sensorial, como numa reportagem do programa Mundo S.A., veiculado pela Globo News em maio de 2009, que encerra este post.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A festa que não ocorreu para Ronaldinho Gaúcho - Gestão de crises no futebol porto-alegrense

Como já foi visto em vários posts deste blog, uma política eficiente de gestão de crises é imprescindível para qualquer empresa quando alguma situação inesperada ocorre. E, nesta política, é muito importante comunicar a veracidade dos fatos à imprensa de forma imediata, como discorre Maria Gabriela Gama em seu artigo Quando o Inferno desce à Terra: a gestão de crises e a sua problemática* (2000, p. 537):

"Perante um cenário de crise, a organização debate-se com uma série de questões às quais tem de dar respostas imediatas (...). Assim, os órgãos de comunicação social têm toda a legitimidade de exercer pressão para que lhes sejam dados todas as informações relevantes para esclarecimento dos diferentes públicos.
Há sempre a tentação para negar o que de facto aconteceu e, se possível, abafar os aspectos mais negativos. As especulações que se fazem em torno da organização são fruto do silêncio e não há nada que agrade mais aos órgãos de comunicação social do que descobrir que a organização está a camuflar o que na realidade aconteceu.
"


Por esta ótica das especulações, a gestão de crises também é necessária para os clubes de futebol, que também podem ser consideradas como organizações (desportivas, no caso). Esta importante prática não deve ser planejada só na época em que o time perde um campeonato ou uma partida importante: uma situação inesperada pode acontecer, como a própria expressão antecipa, a qualquer momento; no caso à seguir, num início de temporada futebolística brasileira.

O início do mês de janeiro é, geralmente, um período em que há poucas notícias a respeito de esportes dentro das quadras e campos (tanto que, como viu-se recentemente neste blog, muitas retrospectivas e matérias especiais são reservadas para estes dias). Os olhos dos telejornais especializados se voltam para a preparação dos times e as contratações para a próxima temporada, principalmente se forem jogadores renomados. Porém, nenhuma tentativa de contratação foi tão falada neste ano de 2011 como a do meio-campista Ronaldinho Gaúcho, que estava no time italiano do Milan.

Desde julho de 2010, havia o interesse do Palmeiras em repatriar o jogador, contudo a novela começou de fato em dezembro, quando o Grêmio, clube em que Ronaldinho atuou entre 1998 e 2001, entrou nas negociações e se apoiou, dentre outras vantagens, no quesito emocional para trazê-lo de volta ao Brasil. E então começou a épica disputa, ainda com Flamengo, Palmeiras e (talvez) Corinthians, para contar com o jogador na temporada de 2011.

Mas, dentre tantas notícias desencontradas e tantos personagens, o aspecto mais importante a se analisar neste post ocorreu na sexta feira, no Estádio Olímpico, no que seria a apresentação oficial de Ronaldinho como jogador do Grêmio, com direito a caixas de som reservadas no dia anterior, um helicóptero exclusivo para o clube, shows com artistas gaúchos (como o do ex-vocalista do Engenheiros do Hawaii) e reserva de reforços policiais.

Seria uma grande festa para reforçar, não só o elenco do time, mas a própria imagem do Grêmio, pois veículos de imprensa de todo o mundo estariam cobrindo a apresentação. Porém, a festa para o provável retorno de Ronaldinho ao Grêmio não ocorreu, frustando os torcedores que se aglomeraram nas dependências do Estádio Olímpico desde o período da manhã e revoltando Paulo Odone, presidente do clube. Palavras dele: "Mandei retirar tudo, mandei retirar e vou tirar junto o responsável. Não tem nada de novo, o Ronaldinho só será jogador do Grêmio quando assinar contrato". Esta situação indesejada virou motivo de chacota de torcedores rivais, como o vídeo abaixo que mostra no que resultou a festa armada pelo clube gaúcho:





Mesmo assim, os torcedores e dirigentes gremistas acreditavam num adiamento da festa para a semana seguinte. Porém, com o avanço das negociações de Ronaldinho com o Flamengo e com outras exigências propostas por Assis, irmão e empresário do jogador, o time porto-alegrense deu por encerrada a tentativa de contratação no fim da tarde do dia 08 de janeiro, interferindo negativamente na imagem do atleta junto aos torcedores gremistas. O Palmeiras, outro clube interessado no atleta, desistiu no dia seguinte.




Independentemente de qual clube irá contratar Ronaldinho Gaúcho (no caso, o Flamengo, que acertou com o atleta e seu empresário na noite de 10 de janeiro), o marketing do Grêmio saiu perdendo por gerar uma crise desnecessária no clube, contratando serviços e profissionais para uma festa que poderia não acontecer, como foi o caso. Se o objetivo desta movimentação de sexta feira era pressionar o atleta e o empresário, isto também não foi alcançado, pois os dois estavam no Rio de Janeiro. Quem mais perdeu (ou ganhou - só o tempo dirá) com estes acontecimentos desencontrados foi o torcedor gremista, que se sentiu enganado.


*In: Comunicação e Sociedade 2, Cadernos do Noroeste, Série Comunicação, Vol. 14 (1-2), 2000, 535-542.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Um toque de informalidade na divulgação científica - A volta de Beakman às telas brasileiras

É quase um lugar comum afirmar que uma pessoa pode retirar tudo da outra, exceto o conhecimento que esta absorveu ao longo dos anos. De fato, a busca pelo conhecer deve ser uma constante na vida do ser humano, principalmente nos dias atuais, em que se aumentou consideravelmente o alcance e a velocidade com que as informações são modificadas e transmitidas.

Esta busca pelo conhecimento precisa começar ainda na infância, durante o período escolar, com o estudo de várias disciplinas, como Matemática, Português, História, Geografia, Ciências... Mas uma pergunta sempre rodeia os planos de aula da maioria dos professores: como se faz para que os alunos entendam, por exemplo, o funcionamento de um carro? Esta preocupação é válida, pois nem sempre o conhecimento científico é entendido pela maioria das crianças, como explica Suzana P. M. Mueller no artigo Popularização do Conhecimento Científico (2005, p. 01):

"(...) São notícias que chegam a nós, não cientistas, de várias maneiras, por vários canais. Como leigos, não estamos preparados para ler os textos originais, escritos por pesquisadores e dirigidos a outros pesquisadores, incompreensíveis para quem não tem o treinamento necessário. Dependemos de intermediários, pessoas e entidades que fazem usos de vários canais de comunicação e linguagens para transmitir as novidades científicas aos diversos segmentos da sociedade."

Ou seja, no caso de ensinar conceitos científicos às crianças e aos adolescentes, é necessário simplificar a linguagem e deixá-la mais lúdica para que este público-alvo entenda os processos e possa assimilá-los com mais facilidade. Com isso, a informação passa a ser muito mais do que meros dados a se decorar para uma prova no fim do semestre: a informação passa a gerar conhecimento, que fica registrado para sempre na memória da criança/adolescente.

Um dos grandes exemplos de se utilizar do entretenimento e da informalidade como ferramentas para um aprendizado mais eficiente dos conceitos científicos é a série americana O Mundo de Beakman, produzida nos anos 90, que tinha, como personagens, o professor Beakman (Paul Zaloom), o rato de laboratório Lester (Mark Ritts) e três assistentes que se revezavam durante as temporadas: Josie (Alana Ubach), Liza (Eliza Schneider) e Phoebe (Senta Moses).

Segundo o blog O Mundo de Beakman (não oficial, porém especializado na série), "O programa, produzido pela Columbia Pictures, foi baseado na tira em quadrinhos “You Can With Beakman e Jax”, criada por Jok Church, e publicada em vários jornais, dos Estados Unidos e de outros países, mais de 250 ao redor do mundo". A versão televisiva das tiras também teve o mesmo êxito, com veiculação em mais de 35 países, inclusive no Brasil, pelas TV's Cultura (1994 - 2002), Record (1997), Cl@se (2000 - 2005) e Boomerang (2006).

No programa, Beakman recebia cartas com perguntas de telespectadores americanos (na dublagem brasileira, foram colocadas cidades fictícias) e, a partir delas, realizava e ensinava experimentos científicos, além de "trazer" cientistas já falecidos e de abordar os temas do episódio com muita informalidade e leveza, como se pode ver na resposta à seguinte pergunta: "Como é que pode um refrigerante gelado ficar frio e o leite quente ficar morno?".



Como se pode ver, o tema é tratado através de ilustrações e exemplos, como a comparação do movimento dos carros com o das moléculas. Além disso, para divertir o telespectador e, consequentemente, prender a sua atenção, há o estereótipo do "cientista maluco", representado por Beakman, uma grande variedade de cores no cenário e a própria dinamicidade do programa.

Após nove anos fora do ar, a TV Cultura trouxe o seriado de volta no dia 03 de janeiro de 2011, dentro do bloco "Sessão Da Hora", e figurou entre os assuntos mais comentados do microblog Twitter durante a primeira segunda-feira de 2011, talvez pela falta de programas com este conceito na televisão brasileira, principalmente no segmento aberto e também pelo saudosismo de muitos jovens-adultos de hoje que aprenderam um pouco de Ciências, através deste programa, quando eram crianças.

Pode-se concluir que uma política de educomunicação para o ensino de conceitos científicos, adequada para a idade dos alunos e bem elaborada verbalmente e imageticamente, se torna fundamental para que estes dados possam ser assimilados não somente como "decoreba" para passar de ano, mas para serem lembrados durante toda a vida.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Comunicação e a juventude que nunca morrerá - Mídia e o envelhecer jovem de Susana Vieira

A cada ano, promissores artistas surgem como meteoros, demonstrando (ou não) seus talentos, simpatia e beleza, através das mídias tradicionais (encontros com olheiros espalhados por supermercados e shoppings, programas de calouros na televisão, promoções feitas em canais de rádio) ou das tão faladas mídias sociais, principalmente pelo microblog Twitter e pelo site MySpace.

Jovens e cheios de energia, muitos atingem patamares significativos de sucesso em pouco tempo e conseguem se manter livres das polêmicas, como o cantor Luan Santana e o jogador Paulo Henrique Ganso; porém, uma parte destes neo-profissionais da arte acabam se envolvendo em escândalos, seja com drogas, bebidas ou pela troca constante de parceiros num relacionamento. Alguns exemplos conhecidos: Britney Spears, Paris Hilton, Amy Winehouse e os brasileiros Ronaldo Fenômeno (mais necessariamente com os travestis) e Daniela Cicarelli (graças ao Youtube).

Mas por que a mídia teria interesse nesta exposição de assuntos que, num primeiro momento, seriam particulares? Neste caso, uma das óticas possíveis é a de Foucault, citada por Ieda Tucherman no artigo Michel Foucault, hoje, ou ainda: do dispositivo de vigilância ao dispositivo de exposição da intimidade (2005, p. 03, grifos da autora):

"Para exemplificar seu modelo, Foucault elabora a análise do panóptico, cujo interesse se evidencia por si mesmo: aparece como uma lógica tecnológica que, distribuindo espaços e olhares produz um sistema capaz de organizar os princípios de disciplina e vigilância, já que o olhar do outro, sendo sempre possível enquanto vigilância, geraria um sistema de interiorização das regras e das normas, fazendo surgir os chamados corpos dóceis."

Resumindo, a mídia seria esta lógica tecnológica que produz este sistema que, muitas vezes, impõe princípios de vigilância e disciplina, como a contratação de fotógrafos que realizam um trabalho do tipo paparrazzi, ou seja, para surpreender o artista em momentos pouco confortáveis ou esperados. Ainda neste sistema estão os programas de televisão que possuem um espaço para falar sobre a vida das celebridades, que pode ser total, no caso do TV Fama (Rede TV!) e do Vídeo Show (TV Globo), ou parcial, como o Mulheres (TV Gazeta) e Hoje em Dia (Rede Record).

Mas esta linda vida de juventude e de liberdade não atrai somente os mais novos. Artistas com mais tempo de idade e de carreira, reconhecidos nacionalmente e com vastos currículos no cinema, no teatro e na televisão, começam a buscar o rejuvenescimento da própria imagem através de plásticas, de um vestuário mais ousado para a idade. Essa prática pode, sim, ser saudável e benéfica para o lado pessoal e profissional do artista, mas é necessário, assim como para a maioria das ações humanas, ter limites.

Este post surgiu através do Twitter, vendo um tweet da querida Márcia Ceschini que falava exatamente desta exposição do exarcebado rejuvenescimento de artistas com idade avançada. E um grande exemplo desta atitude é da atriz Susana Vieira, que já tem mais de sessenta anos no RG, porém não os mesmos no aspecto corporal: a artista da Rede Globo já fez lipoesculturas, possui um figurino ousado para a idade e desfila como destaque/madrinha de bateria em escolas de samba cariocas no Carnaval, além de ficar com os seios à mostra durante lançamento de seu CD no programa Domingão do Paustão, como visto a seguir. Ou seja, talvez ela estaria tentando negar a sua própria idade, se apegar a ser o que não é.



Como se não bastasse isso, Susana teve seu terceiro casamento em 2006 com o policial Marcelo Silva, 28 anos mais novo, que a traiu por duas vezes - em uma delas, foi acusado de agredir uma mulher - antes de se separarem. O policial morreria meses depois, de overdose, juntamente com a namorada. Logicamente, todos estes escândalos foram prontamente divulgados e explorados pelo sistema tecnológico da mídia. A partir destas fatos, qual seria o grande problema desta conservação da juventude pelos artistas mais experientes? A própria Márcia Ceschini mostra uma linha de resposta: 

"Apesar delas serem artistas e viverem da exposição e beleza, sou a favor de comportamento digno. Mulheres como Susana Vieira que tem um comportamento diferente e se vestem vulgarmente eu não concordo. Não é feminismo ou preconceito. Mas cada um com sua idade."  

Para finalizar este post, é preciso que esses artistas tenham este comportamento digno, ou seja, entender o sistema de vigilância imposto pela mídia e fazer uma interiorização das regras e normas (dita no começo deste texto), com a ajuda de assessores de imprensa e de imagem, para que o resgate da juventude não morra nos escãndalos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Comunicação e intertextualidade - Posse de Dilma Rousseff sob a ótica de #galvaonaposse

A inserção de cases de comunicação não possui restrição de dia, nem de contexto. Basta somente que se tenha nas mãos um texto passível de análise para que algum estudo se inicie, seja visando o lado sociológico, cultural, midiático ou linguístico. Mas será que um texto é apenas um único texto somente?

É esta uma das perguntas que Koch, Bentes e Cavalcante (2007, p. 14)* tentam responder, baseando-se em renomados teóricos da Linguística. Para citar um exemplo, os autores descrevem o postulado dialógico de Bakhtin (1929): "um texto (enunciado) não existe nem pode ser avaliado e/ou compreendido isoladamente: ele está sempre em diálogo com outros textos." Ou seja, todo texto é um intertexto, possui outros textos dentro dele, causando, assim, a tão falada intertextualidade.

Neste mesmo livro, há a descrição de vários tipos de intertextualidade, que são importantes para os profissionais de comunicação, pois conseguem fazer com que seu produto ou ideia seja reconhecida rapidamente e lembrada por muito mais tempo. No caso a seguir, o fenômeno visto é a intertextualidade estilística (2007, p. 19), em que "o produtor do texto, com objetivos variados, repete, imita, parodia certos estilos ou variedades linguísticas (...)". No caso, o estilo copiado é de um famoso narrador esportivo da Rede Globo.

No primeiro dia do ano de 2011, figurava nos Trending Topics do microblog Twitter a hastag #galvaonaposse, que foi criada por Reinaldo Andrade e com o apoio do comentarista da ESPN Leonardo Bertozzi. A expressão retratava frases tipicamente usadas pelo locutor Galvão Bueno, só que adaptadas a tudo que ocorria na posse de Dilma Rousseff como Presidenta da República. Este novo fenômeno ocorrido no Twitter chegou rapidamente aos jornais eletrônicos, como no caderno on-line de Esportes da Folha de São Paulo e na página de Esportes do portal UOL.

E até mesmo repórteres da Rede Globo aderiram ao movimento de frases que o Galvão falaria neste momento especial para a democracia brasileira, criando ou dando retweet nas sentenças, como pode-se ver na figura abaixo, retirada do Twitter do jornalista esportivo da emissora Bruno Laurence.


Este fenômeno também ocorre, há muito tempo, com o ator Chuck Norris e, recentemente, com o jogador Brasão, na época jogador do Santa Cruz. A diferença entre estes fenômenos e o de Galvão é que, enquanto os primeiros reforçavam as "qualidades" dos personagens com frases de efeito, o que se viu em #galvaonaposse foi justamente o contrário: as características de narração que o Galvão possui, como as frases de efeito dele, reforçaram o que acontecia na posse, seja pelo lado humorístico ou crítico.

Outras frases interessantes retiradas de perfis aleatórios no Twitter durante a tarde do dia 1º de janeiro sobre a possível narração de uma posse presidencial, feita por Galvão Bueno:
- "assistir a #possedilma é teeste pra cardíaco amiiigo!! #galvaonaposse" (via @MrJuniorAzer);
- "Aponta o centro da mesa o ministro, Sr. Cesar Peluzzo. Final do discurso da presidente Dilma Roussef" #galvaonaposse (via @gabriel_imortal);
- "- Reginaldo, seu palpite. - Dilma. - Burti, você. - Dilma. - Mariana, o seu. - Dilma. - Eu vou de Vettel. VEM A LUZ VERMELHA!  #galvaonaposse" (via @SUILSC);
- "Sai que é suuua Dilma!!! #galvaonaposse" (via @wilsondealmeida).
 


É interessante perceber a identificação das frases com dois esportes populares no Brasil: o futebol (mais especificamente na frase repostada por Laurence e na 2ª  e 4ª frases retiradas da busca) e a Fórmula 1 (na 3ª frase, em que Dilma, implicitamente, é comparada a uma Ferrari). Além disso, perguntas para o comentarista de arbitragem Arnaldo César Coelho foram frequentes, como esta frase.

Com isso, pode-se ver a importância do entendimento da intertextualidade existente entre estas duas "vozes" diferentes (uma locução esportiva "falando", "interferindo", nem que seja de modo ficcional, com uma cerimônia de posse da primeira mulher presidenta do Brasil) para que a comunicação e o entendimento das expressões sejam eficazes. E isso, com certeza, ocorreu, basta ver a repercussão obtida da tag #galvaonaposse num dia em que o acesso ao Twitter é muito baixo em alguns horários. O ano de 2011 começou muito bem para a rede de microblogs e para os twitteiros criativos.

* KOCH, Ingendore G. Villaça; BENTES Anna Christina; CAVALCANTE,. Mônica Magalhães. Intertextualidade: diálogos possíveis. São Paulo: Cortez, 2007.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Em 2011, vamos RePensar o mundo juntos? - Post institucional do blog RPitacos

O primeiro final de semana do ano de 2011 está acontecendo, e muitas pessoas começam a fazer planos e imaginar o que esta segunda década do terceiro milênio reserva para a humanidade, para cada pessoa de boa ou má vontade. É tempo de rever conceitos, estimular valores que estão desacordados há muito tempo, produzir novas ideias para os novos problemas que virão. Enfim, é tempo de pensar, ou melhor, RePensar o mundo.

Segundo o Dicionário Michaelis, a palavra "repensar" é "Tornar a pensar em: (...). Pensar madura e detidamente; reconsiderar.". O amadurecimento precisa ser algo natural para todo ser humano, para todo projeto de vida que se faça. Às vezes, para que isso ocorra, é necessário reconsiderar certos aspectos, certas decisões, certas ideias que são tidas como intocáveis. E esse é o objetivo deste blog.

O blog RPitacos surgiu em 04 de junho de 2010 sendo apenas um projeto de exercício de leitura, de escrita e, principalmente, do descondicionamento do olhar, ou seja, não se contentando com o que passava a maioria dos veículos de massa, mas tentando olhar o mundo de um ãngulo diferente, através de conceitos teóricos (seja de Comunicação ou de outras áreas afins) e exemplos antigos ou recentes.

Porém, o que era pra ser um simples blog acabou virando, a começar pela autora, uma paixão e um trabalho. Os elogios e as críticas começaram a surgir, assim como os amigos que colaboram para que o RPitacos crescesse a cada novo post (são tantos amigos que, infelizmente, não dá para colocar todos os nomes aqui).

Houve algumas indicações de posts daqui como uns dos Melhores da Semana, em lista organizada pelo Horizonte RP (veja um deles). Outros textos foram reconhecidos por profissionais e acadêmicos qualificados, além das qualificações dos artigos da autora para uma das edições da Revista A Bordo e a escolha desta que vos fala para ser uma das novas cappuccinas de um blog respeitado no campo das Relações Públicas, que é o OCappuccino. Talvez um prêmio que eu, pessoalmente falando agora, nunca imaginaria receber era ser finalista do V Prêmio RP do Brasil, na Categoria Estudantil. Não ganhei, mas o 4º lugar obtido me deixou muito feliz e com orgulho de ser Relações Públicas!

Por falar em orgulho da profissão, o RPitacos ainda promoveu ações para declarar a paixão dos profissionais pelas Relações Públicas, como a #ILoveRP, em que foram postados textos sobre a importância desta profissão no mundo contemporâneo, nas proximidades do Dia Nacional das Relações Públicas, celebrado em 02 de dezembro. Por fim, na última semana de 2010, uma lista promovida pela Rede RP-Online mostra o RPitacos como um dos 29 blogs de estudantes e profissionais de Relações Públicas que merecem ser seguidos no próximo ano.

Enfim, com toda essa história contada, só se pode desejar que 2011 seja um ano maravilhoso, com muitas realizações e que possamos RePensar o mundo juntos, pois essa é a essência deste blog: que, através das reflexões e discussões relatadas, a comunicação possa ser vista, cada dia mais, como uma ferramenta importantíssima para as organizações e para os seres humanos de maneira geral. Muitas novidades virão, mas com os pitacos de sempre!

FELIZ 2011 para todos!



Maíra Masiero - Editora do RPitacos